´Science´: dá mais lucro preservar florestas

Preservar o meio ambiente é mesmo um bom negócio, e não apenas na linguagem figurativa. Pode ser difícil imaginar uma floresta intacta como mais lucrativa do que uma fazenda de soja ou gado, ou um recife de corais preservado mais lucrativo do que uma indústria de pesca, mas é justamente isso que propõem os autores de um estudo publicado hoje na revista Science. Se não para o próprio fazendeiro ou pescador, mas para a população em geral e para o planeta, preservar a natureza dá muito mais dinheiro do que destruir, garantem os pesquisadores. Eles estudaram cinco casos de ecossistemas intactos que foram transformados para atividades humanas. Em todos eles, o homem saiu perdendo. Mais precisamente, um prejuízo contínuo de US$ 250 bilhões ao ano, pelo índice anual de transformação ambiental (1,2%) nos últimos dez anos, desde a Rio-92. O que a população ganha em alimentos e produtos, perde em qualidade dos solos, controle de erosão, reciclagem de nutrientes e fontes de água potável, regulação do clima, seqüestro de carbono, polinização, controle biológico de espécies, biodiversidade - tanto para caça como para pesquisa de moléculas medicinais - e até opções de turismo e recreação. "São serviços normalmente ignorados pela balança econômica, mas que, sem o meio ambiente para fornecê-los gratuitamente, precisamos pagar para obtê-los de alguma outra forma", disse ao Estado o pesquisador Robert Costanza, do Instituto para Economia Ecológica da Universidade de Maryland, um dos principais autores do trabalho. Coordenou o estudo Andrew Balmford, da Universidade Cambridge. Segundo Costanza, o estudo fornece uma estimativa "bastante conservadora" do valor desses serviços. E ainda assim, os números são gigantescos. Para manter uma rede global de unidades de conservação, abrangendo 15% dos ecossistemas terrestres e 30% dos marinhos, o mundo gastaria US$ 45 bilhões ao ano, segundo os pesquisadores. Os benefícios da conservação dessas áreas, entretanto, dariam um retorno de US$ 4,4 trilhões a US$ 5,2 trilhões, permitindo-se a exploração sustentável dos recursos. Na pior das hipóteses, portanto, a razão custo-benefício de "um sistema de reservas com parâmetros mínimos de segurança", seria de 1 para 100, concluem os autores. "As áreas reservadas seriam em regiões de pouca população e atividades econômicas. Portanto não estaríamos impedindo o progresso de ninguém", diz Costanza. Apenas 7,9% da superfície terrestre e 0,5% das regiões marinhas são protegidas ao custo de US$ 6,5 bilhões ao ano. E para chegar aos US$ 45 bilhões, bastaria redirecionar 5% do que os pesquisadores chamam de "subsídios perversos", que ajudam produtores em detrimento do meio ambiente e dos padrões sociais da população. Pesquisa - Os pesquisadores, de instituições nos EUA e na Grã-Bretanha, analisaram mais de 300 casos de conversão de ecossistemas, mas apenas cinco preencheram os requisitos exigidos para o trabalho: uma floresta na Malásia convertida para exploração madeireira intensiva, e outra em Camarões, usada para agricultura familiar e comercial; um manguezal na Tailândia destruído para o cultivo de camarões; um brejo no Canadá cuja água foi drenada para a agricultura; e um recife de coral nas Filipinas dinamitado para a pesca. Em todos eles, os serviços biológicos do bioma intacto ofereciam mais retorno do que os serviços obtidos com a conversão para o extrativismo. O ganho econômico de cada um era de 14%, 18%, 70%, 60% e 75%, respectivamente. A margem vai variar de acordo com a produtividade e eficiência da atividade, mas, para Costanza, os casos estudados são emblemáticos. Os pesquisadores deixam claro que não são contra o desenvolvimento. Afinal, 6 bilhões de pessoas não podem viver sem causar impacto ao ambiente. "Em sua maior parte, no passado, a abertura de florestas e áreas alagadas para aproveitamento na agricultura e outras formas de desenvolvimento provavelmente beneficiaram a sociedade como um todo. No entanto, as trajetórias atuais do desenvolvimento, obviamente, não estão provendo benefícios da forma como deveriam", escrevem os autores. A solução, diz Costanza, é explorar os recursos naturais de maneira mais inteligente, combinando práticas de conservação e desenvolvimento sustentável. "Se considerarmos todos os ecossistemas ainda intactos do planeta, ainda sobra espaço mais do que suficiente para produzirmos a comida e os recursos de que precisamos."

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