Se Lula fosse uma planária

Existe um animal no mundo que é quase imortal. O nome dele é planária, um verme de corpo achatado e cara de batata amassada, porém mais resistente do que qualquer soldado armado até os dentes no campo de batalha.      A planária é a rainha suprema da regeneração. Uma espécie de Wolverine, aquele personagem dos X-Men com garras de adamantium e poder de cura, só que muito mais poderosa. Você pode cortar uma planária em 279 pedaços e cada um deles se regenerará para formar um novo animal completo.   Confuso? Então imagine o seguinte: Se o presidente Lula fosse uma planária, ele não só teria crescido um novo dedo, como o dedo, amputado nos tempos de torneiro mecânico, teria formado um novo Lula inteiro, da cabeça aos pés! Ou seja, teríamos dois Lulas no lugar de um. (Como meu negócio é ciência e não política, me abstenho de dizer se isso seria bom ou ruim para o País.)   Ou então, imagine se você fatiasse um salmão para fazer sushi e cada fatia de sashimi se transformasse em um novo peixe completo. Esse é o poder da planária. Você tenta acabar com ela, e acaba apenas formando mais delas! Enquanto nós, os super-evoluídos e superpoderosos seres humanos, não conseguimos regenerar nem um pedaço de dedo.   Quem me contou sobre esse bichinho fantástico alguns anos atrás foi o professor Alejandro Sánchez Alvarado, um pesquisador gente fina da Universidade de Utah.   Quem fez a conta dos 279 pedaços foi o lendário biólogo americano Thomas Hunt Morgan, que entre outras coisas, "descobriu" os cromossomos e ajudou a construir os alicerces da genética moderna. Em 1898, ele literalmente saiu fatiando planárias até descobrir qual era o menor pedaço a partir do qual o animal ainda conseguia se regenerar. Chegou a um pedacinho de 1/279 avos o tamanho do animal "adulto" (se é que esse termo pode ser aplicado à planária).   As planárias estão por toda parte, nos oceanos, nos rios, na terra, dentro de orquídeas, e por aí vai. "O único nicho que não preencheram foi o ar, porque elas não tem asas", diz Alejandro. Segundo ele, são conhecidas mais de 50 mil espécies de planárias. Algumas podem causar doenças, mas a maioria, não.   Alejandro trabalha com um espécie de água doce, chamada Schmidtea mediterranea, que mede entre 3 mm e 12 mm. Com suas pesquisas, ele espera desvendar os segredos celulares e moleculares da regeneração.   Os cientistas não entendem exatamente por que alguns animais podem regenerar partes do corpo e outros, não. Salamandras, lagartixas e outros répteis e anfíbios podem regenerar rabos e, até, membros inteiros. Os seres humanos não podem crescer uma nova perna, mas o fígado, por exemplo, pode se regenerar por completo após uma cirurgia. Nosso sangue também é um tecido renovado continuamente, por células fabricadas pela medula óssea.   Um ingrediente crucial nessa receita são as células-tronco, que podem se multiplicar e se diferenciar quase infinitamente para formar novos tecidos. A planária está cheia delas! É praticamente um saco ambulante de células-tronco. Tudo bem que a planária é um animal muito mais simples do que nós. Mas a mosca-das-frutas também é, e ela já ajudou a desvendar uma série de segredos genéticos importantes para o ser humano. Com a planária é a mesma coisa. Seu genoma já foi seqüenciado e, com o trabalho de Alejandro e sua equipe, quase 250 genes envolvidos na regeneração já foram identificados. Muitos têm correspondentes no genoma humano. "A caixa de ferramentas genética é a mesma para todos", diz Alejandro.   Por fim, a única maneira de matar uma planária é tocando fogo nela, ou por alguma infecção. Para se reproduzir, elas simplesmente se esticam e se dividem em duas. Mas não tente isso em casa.   Pense nisso a próxima vez que cortar o dedo.   * Leia também as colunas anteriores na série "Imagine Só":   Se beber, agradeça aos fungos    A origem dos combustíveis fósseis   Meio homem, meio bactéria   As estrelas da noite  

13 de fevereiro de 2008 | 14h36

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