Seguradoras se adaptam às mudanças climáticas

Um dos lemas do capitalismo é procurar oportunidades onde os outros vêem apenas riscos. Se isso for verdade, o mercado premia quem explora as oportunidades de ganho onde outros percebem apenas riscos de perda. A indústria de seguros é um exemplo de pessoas que acreditam nisso. Há dez anos, as grandes seguradoras viram os seus riscos crescendo perigosamente nas catástrofes provocadas por mudanças climáticas globais. Em 1992, por exemplo, o furacão Andrew varreu a Flórida e boa parte da costa leste dos Estados Unidos, provocando perdas econômicas calculadas em US$ 20 bilhões, dos quais US$ 17 bilhões estavam segurados. Como conseqüência dessa e outras perdas, em 1994, as duas maiores resseguradoras européias - Swiss Re. e a Munich Re. - viram-se lado a lado com ambientalistas nas reuniões e conversas de corredor das negociações internacionais que desembocaram no Protocolo de Kyoto. Para essas resseguradoras, as mudanças climáticas globais eram um fato perceptível e não uma invenção de ativistas radicais ou cientistas aloprados. Não deve ter sido uma situação confortável. Do outro lado, representantes de setores como o de petróleo, gás e carvão mineral. Naquele ano, a Swiss Re. publicou o relatório Aquecimento Global - Elemento de Risco, que descreve o aumento verificado nas perdas econômicas e nas perdas seguradas, em todas as partes do mundo, por causa do aumento do número e da violência das catástrofes de natureza climática: furacões, tufões, tornados, enchentes, secas, ondas de frio e de calor. Hoje, passados dez anos, o quadro é muito mais claro, como mostra o gráfico acima. Nele, é visível que há um claro aumento do número de catástrofes naturais. Na base, o número de desastres geológicos (terremotos, erupções vulcânicas) permanece praticamente constante, mas o dos climáticos (tempestades como furacões e tornados, enchentes, incêndios florestais) cresce ano a ano. Aumentou, é claro, tanto o número de vítimas como as perdas econômicas e seguradas. Na década de 1960, em todo mundo, as perdas econômicas em catástrofes naturais foram de US$ 69 bilhões, dos quais US$ 6,6 bilhões segurados. Na década de 1990, as perdas alcançaram US$ 536 bilhões, US$ 99 bilhões dos quais estavam segurados. Evidentemente, foram muitos os fatores que provocaram esses aumentos. As perdas econômicas cresceram com a concentração populacional nos lugares sujeitos a catástrofes naturais, o aumento do valor econômico das propriedades e o próprio desenvolvimento urbano. E as perdas seguradas aumentaram porque a prática de contratar seguros tornou-se mais popular nos últimos 40 ou 50 anos. Eventos - Mas para além desses fatores da economia humana houve um inequívoco aumento no número de grandes eventos catastróficos. Durante toda década de 1960 foram 20 eventos, contra 82 na década de 1990. E, como ocorre no gráfico ao lado, o que aumentou foram os desastres de origem climática. Quem vai pagar por isso? A população, os tomadores dos seguros que, ao longo do tempo, arcam com o aumento dos custos dessas catástrofes naturais. As resseguradoras são apenas as megaempresas que servem de seguro para as seguradoras de quem se compra as apólices. Sempre que se contrata um seguro de vida, para moradia ou para o automóvel, parte do prêmio que se paga vai para os cofres das resseguradoras. Elas, por sua vez, cobrem as perdas das seguradoras sempre que essas ultrapassam a sua capacidade. Mas é possível que as resseguradoras já tenham encontrado a maneira de fazer com que se paguem, desde já, por esses custos. Depois de passarem a última década convencendo os governos e poderosos lobbies empresariais de que as mudanças climáticas globais são um fato, as empresas de resseguros procuram, agora, convencer os seus parceiros comerciais de que essas mesmas mudanças climáticas podem, afinal, significar oportunidades de ganhos. Tudo dependeria, segundo a Swiss Re., da velocidade em que esse aquecimento acontece e da capacidade humana de prever onde, quando e como acontece. Recomendando estudos setoriais de sensibilidade ao clima, o relatório Oportunidades e Riscos das Mudanças Climáticas, publicado pela Swiss Re., aponta que eles "podem revelar oportunidades totalmente novas para tirar vantagem de efeitos favoráveis e evitar os desfavoráveis". Para mostrar a necessidade de estudos específicos, o relatório exemplifica que "no caso dos esportes de inverno, uma tendência ao aquecimento poderia resultar definitivamente em redução de receitas, enquanto o golfe poderia permanecer sem ser afetado do ponto de vista econômico e os esportes a vela poderiam lucrar com ela". A empresa chama a atenção para eventos que, embora não sejam percebidos como catastróficos, causam perdas significativas. Como exemplo, retoma as temperaturas entre novembro de 1994 e outubro de 1995, quando a Inglaterra teve um clima anormalmente quente, com temperaturas médias 1,5°C acima da temperatura média de 1961 a 1990. Naquele período, os fazendeiros britânicos acumularam perdas de 180 milhões de libras esterlinas, enquanto a indústria de eletricidade teve prejuízos de 355 milhões de libras esterlinas, e a indústria de vestuário de 380 milhões de libras esterlinas. Do outro lado, a indústria de bebidas teve um aumento nas vendas de 180 milhões de libras esterlinas. A indústria de seguros pagou 350 milhões de libras esterlinas apenas em danos a edifícios provocados pela seca prolongada, que afetaram as fundações. Enchentes - Dando a entender que aprendeu com essas perdas do passado e elegendo a adaptação como uma oportunidade criada pelas mudanças climáticas globais, o relatório deixa algumas perguntas: "Quando, por exemplo, um fazendeiro deve mudar para variedades de cereais resistentes à seca? Quando uma área de esqui deve ser abandonada? Quando o segurador deve adaptar seus contratos para condições climáticas alteradas? Quando se deve investir bilhões para aumentar a altura das proteções contra enchentes dos diques dos portos: antes do nível do mar subir, quando ele começar a subir, depois que ele tiver subido ou quando uma enchente fizer um número anormal de vítimas pela primeira vez?" Como se pode perceber, fazer as perguntas já significa racionalizar os riscos das mudanças climáticas globais. Respondê-las é apostar em alguma oportunidade de ganho num jogo de puro capitalismo: maior o risco, maior o ganho. Ganho possível, é bom lembrar. Como lembra Bruno Porro, analista senior de risco da Swiss Re., "a questão decisiva não é se temos de nos adaptar (às mudanças climáticas), mas ao quê, quando e como". Se valerem para algo as lições da evolução biológica, podemos apostar que nas mudanças climáticas, as espécies especializadas perderão espaço para as oportunistas e mais flexíveis ou adaptáveis. Podemos estar assistindo aos primeiros movimentos dessa mudança no ambiente empresarial. Mas serão as empresas de seguros esses animais flexíveis, adaptáveis e oportunistas? Alguém arrisca um palpite? E as suas economias?

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