Seminário discute aproveitamento do biogás de aterros

O potencial energético do biogás proveniente de aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto no Estado de São Paulo é de 60 megawatts (MW), suficiente para abastecer uma cidade de 30 mil habitantes. Criar condições para a aproveitamento dessa energia é o objetivo do workshop Energia e Biogás, que acontece até amanhã, na Secretaria Estadual do Meio Ambiente, em São Paulo. Apesar do potencial, proveniente sobretudo dos dois aterros municipais de São Paulo - Bandeirantes e São Paulo -, com capacidade para cerca de 20 MW cada, atualmente apenas um projeto da Universidade de São Paulo (USP) está em funcionamento no Estado, na Estação de Tratamento de Esgoto de Barueri, onde são produzidos 2 mil quilowatts (KW). ?O projeto ainda é experimental e gera também água quente, mas o objetivo é chegar ao potencial total da ETE, de 30 KW?, diz o coordenador do seminário, João Wagner Alves, da Companhia de Tecnologia em Saneamento Ambiental (Cetesb).O seminário faz parte de um convênio entre o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) e o Governo Estadual, para a elaboração de um manual sobre a recuperação do biogás, destinado a prefeitos e administradores de aterros. ?Este encontro, para o qual trouxemos especialistas estrangeiros e locais, é a primeira iniciativa para capacitação e produção do manual, que deverá ser lançado no próximo ano?, explica. A publicação trará informações sobre tecnologia, fabricantes, financiadores, legislação e casos bem-sucedidos de exploração. Além da oportunidade de gerar energia elétrica, diversificando a matriz energética com uma alternativa descentralizada, a utilização do biogás de aterros contribui para diminuir as conseqüências das mudanças climáticas, já que o gás metano, produzido pelo lixo, é muito mais nocivo que o gás carbônico (CO2) na formação do efeito estufa. Com isso, projetos de aproveitamento desse recurso são passíveis de comercialização de créditos no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), previsto pelo Protocolo de Kyoto.Para Alves, o aproveitamento do biogás pode ter também um papel social, ao ser utilizado em prol da comunidade. ?Em Natal, foi construída uma cozinha comunitária abastecida com o gás do aterro, que está sendo usada pela vizinhança pobre da região?, conta. Estados UnidosSegundo Gerald Leone, diretor da Ameresco, uma das maiores empresas mundiais na área de reuso, existem 340 projetos em operação de aproveitamento de gás de aterros nos Estados Unidos, além de cerca de 60 em implantação e 200 em planejamento. ?A maior parte destes projetos estão na região Nordeste do país, onde o gás natural é mais caro e a regulamentação ambiental mais rígida?, diz. Para o especialista norte-americano, os grandes aterros - atual tendência nos EUA - são mais eficientes para o aproveitamento do biogás, embora a tecnologia possa ser aplicada em qualquer escala. ?A captação do biogás, aliada à recirculação do chorume (líquido produzido pelo lixo), processo que acelera a decomposição, tem permitido, ainda, aumentar a durabilidade dos aterros?, informa. Embora a não-assinatura do Protocolo de Kyoto seja apontada como um fator muito negativo para o desenvolvimento das energias alternativas nos Estados Unidos, Leone diz que o interesse em saneamento tem crescido no país nos últimos oito anos e que a demanda por energia limpa também tem aumentado na população, com muita gente disposta a pagar mais por isso. ?Como um todo, porém, os EUA ainda precisam de educação ambiental para o público e para as empresas?.São PauloA primeira experiência com o aproveitamento energético do biogás no município de São Paulo aconteceu nos anos 70, no Aterro Raposo Tavares, e consistia no uso direto do gás em 31 residências e algumas indústrias da vizinhança. No final da década de 80, o gás do Aterro Santo Amaro foi utilizado como combustível de 40 ônibus municipais. Depois disso, em 1996, uma cooperação técnica da Prefeitura com a agência ambiental norte-americana resultou em uma avaliação do potencial de aproveitamento de alguns aterros da cidade, que indicou viabilidade técnico-econômica nos aterros desativados de Vila Albertina e Santo Amaro e nos dois ainda ativos Bandeirantes e São João. A partir daí, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente realizou uma licitação para a concessão da exploração do biogás pela iniciativa privada. Foram apresentadas propostas apenas para os aterros ativos, cujos contratos foram assinados no final de 2000. Segundo informações da Secretaria, esses projetos estão em fase de detalhamento e obtenção das licenças necessárias e não há previsão para entrarem em operação.

Agencia Estado,

23 de abril de 2003 | 16h41

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.