Clayton de Souza/Estadão
A nova estação de pesquisa brasileira Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, está em fase final de construção e deve ser inaugurada em Março Clayton de Souza/Estadão

Sete anos depois, estação brasileira renasce no continente gelado

Substituta de base que pegou fogo, nova unidade deve ser concluída em março

Luciana Garbin, enviada especial / ANTÁRTIDA, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 03h00

É uma construção de respeito. Capaz de superar ventos de até 200 km/h, abalos sísmicos frequentes, solos sempre congelados. Só em estruturas de aço de alta resistência são 700 toneladas e as fundações atingem até 28 metros de profundidade. No total, 54 pilares sustentam 226 contêineres de 3,5 toneladas.

A nova estação brasileira na Antártida impressiona pelos desafios logísticos e de engenharia e pelos traços futuristas. Projetada pelo escritório de arquitetura curitibano Estúdio 41, escolhido num concurso, e executada pela China National Electronics Imports and Exports Corporation (Ceiec), a obra custou US$ 99,6 milhões (cerca de R$ 373 milhões) e deve ser concluída no dia 12. Mas só deve ser inaugurada oficialmente no próximo verão.

O Estado passou esta semana na Estação Antártica Comandante Ferraz acompanhando os últimos trabalhos da construção, que começou em novembro de 2015, ainda sob impacto do incêndio que há exatos sete anos destruiu 70% das instalações e matou dois militares. Mais de 200 chineses se revezam quase 24 horas por dia na obra. Muitos vieram de Harbin, região perto da fronteira com a Rússia famosa pelo festival de esculturas de gelo e frio intenso.

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A Ceiec desbancou finlandeses, chilenos e brasileiros na concorrência feita pela Marinha. Entre as atribuições do contrato, está levar de volta à China todos os contêineres, guindastes, veículos e materiais de construção que não servirem. “Mais de 80% da obra já está pronta e a partir de março o canteiro começará a ser desmontado. Em 5 de abril, a maioria dos chineses vai sair daqui no navio Magnólia rumo ao aeródromo da base chilena”, diz o capitão de mar e guerra da reserva Geraldo Juaçaba, responsável pela reconstrução. Ficarão 25 chineses, que passarão o inverno com 16 militares brasileiros e têm a missão de manter a estação aquecida e testar equipamentos.

A base é composta por três blocos com capacidade para até 64 pessoas. O Leste, destinado às pesquisas, serviços e convívio, tem 14 laboratórios, refeitórios, cozinha e setor de saúde. O Oeste, 32 camarotes, biblioteca, ginásio e auditório, além de paiois de mantimento e tanques no nível inferior.

Formação do continente

No Técnico, geradores, garagem, caldeiras, um incinerador apelidado de dragão e estação de tratamento de água e esgoto, entre outras coisas. Há ainda oito aerogeradores de energia, painéis solares e módulos isolados, de telecomunicações, meteorologia e ozônio, lavagem de sedimentos, mergulho e resíduos perigosos. Todas as fundações do prédio principal foram pré-montadas em Shangai e trazidas de navio em 2016. No ano seguinte, foram fabricados e pré-montados pilares, estruturas e contêineres.

A construção foi vista pela Marinha como uma forma de transferência de tecnologia. Tanto que engenheiros brasileiros passaram quase um ano na China supervisionando os preparativos.

O engenheiro eletricista e capitão-de-corveta Daniel Pontes foi um deles. Com quase tudo pronto, diz sentir grande orgulho. “Se essa estação não é a mais moderna da Antártida, certamente é uma das mais.” A seu lado, o engenheiro mecânico e capitão-tenente Christovam Leal Chaves conta que mais de três mil itens foram analisados pela fiscalização.

Depois do trauma do incêndio de 2012, a segurança virou quase obsessão e acabou ampliando a área da base. “Nosso projeto original tinha 3,3 mil m², mas a estação acabou ficando com 4,5 mil m², em boa parte para aumentar a segurança”, explica Juaçaba. É quase o dobro da antiga, que tinha 2,6 mil m². Tudo também foi pensado para reduzir custos. “Não há lugar mais caro para construir e manter que a Antártida. É fundamental pensar na logística para fazer, ocupar, manter e desmontar se necessário”, diz a arquiteta Cristina Engel, que ajudou a montar os requisitos para construção. “O Brasil é um país tropical que teve de aprender a construir na Antártida.”

Enquanto a obra da estação não termina, militares e alguns civis brasileiros ocupam o Módulo Antártico Emergencial (MAE). Feito por uma empresa canadense, é uma junção de cerca de 60 contêineres, que formam área de aproximadamente 950 m² e permitem uma rotina confortável, com três alas de alojamentos, refeitório, enfermaria, banheiros e academia de ginástica.

CIÊNCIA

Requisito para o Brasil continuar membro consultivo do Tratado da Antártida, as pesquisas científicas no continente continuaram após o incêndio, no MAE e em estações parceiras. Mas a maior parte dos estudos é feita fora da Comandante Ferraz, no Navio Polar Almirante Maximiano, no Módulo Criosfera 1, a 2,4 mil km ao sul da base brasileira, e em acampamentos. Cientistas costumam, porém, amargar fases de incerteza em relação à verba para pesquisas. O edital de 2013, que era para ter sido pago até 2016, teve a última parcela paga em 2017. Em novembro, o governo federal liberou edital de R$ 18 milhões.

"A situação agora está melhor e os pesquisadores estão na expectativa da inauguração da nova estação e da aquisição de equipamentos para os laboratórios pelo Ministério da Ciência e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)”, conta Jefferson Cardia Simões, vice-presidente do Comitê Científico Internacional de Pesquisa Antártica. As pesquisas, diz ele, abrangem desde ciências básicas da atmosfera até estudo de como a massa de gelo responde às mudanças climáticas e impacta a elevação do nível dos mares. “Ao reinaugurarmos a estação, não estamos falando só de ciência. Será a casa do Brasil na Antártida e demonstra nosso interesse em dizer: ‘Olha, também queremos decidir o futuro dessa região do planeta’.”

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Por que tanto interesse na Antártida?

São 29 países que marcam território no continente, que não pode ser explorado até 2048, mas tem imensa parcela de recursos

Luciana Garbin, enviada especial / ANTÁRTIDA, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 03h00

Não tem um grande país que não se interesse pela Antártida. As cinco nações permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU)Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido – estão lá, assim como outras 24. São os membros consultivos do Tratado da Antártica, países que desenvolvem pesquisas e têm direito a voto nas reuniões que decidem o futuro da área sob o paralelo 60ºS. O Brasil é um deles, assim como os vizinhos Chile e Argentina. Outros 24 países participam do tratado, mas sem direito a voto – são os membros não consultivos.

Com 13,6 milhões de quilômetros quadrados, uma área equivalente a 8% do planeta, e cercada pelo Oceano Austral, a Antártida é considerada hoje de domínio internacional. Até 2048, vigorará um embargo definido pelo Protocolo de Madrid que impede a exploração dos recursos minerais do continente, incluindo água e petróleo, e garante liberdade para pesquisas científicas. A partir daí, as nações vão rediscutir os termos do tratado antártico. Como ninguém sabe como serão as novas regras daqui a três décadas, ninguém abre mão de suas pretensões ali, inclusive territoriais no caso de sete países – Reino Unido, Nova Zelândia, Austrália, França, Noruega, Chile e Argentina.

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Trinta países possuem bases de pesquisa no continente. Desses, 19 têm pelo menos uma estação permanente, com destaque para os programas argentino, chileno, russo e americano, com o maior número de instalações. Os argentinos são os que estão mais próximos da Antártida – cerca de mil quilômetros de distância. E se orgulham de ter a estação permanente mais antiga da Antártida, inaugurada em 1904 nas Órcadas do Sul. Além dela são mais 12 bases na região – outras cinco permanentes e sete sazonais. Os chilenos também estão em grande número: têm 12 instalações – três permanentes, sete sazonais e outras duas de menor porte.

É bem verdade que a grande maioria dessas bases tem só militares desarmados, em vez de cientistas, e o requisito para poder decidir sobre o continente antártico é desenvolver pesquisas contínuas na região, e não espalhar bases por ela. Mas não se pode negar que a presença física dos dois vizinhos é bem maior que a do que o Brasil, que se tornou membro signatário do Tratado da Antártica em 1975 e foi alçado ao posto de membro consultivo no início dos anos 1980, após criar o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) e realizar a primeira expedição ao continente austral a bordo dos navios Barão de Teffé, da Marinha, e Professor Wladimir Besnard, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.

A disputa não se restringe aos vizinhos. A Rússia, por exemplo, possui 12 bases – cinco sazonais e sete permanentes. Uma delas foi construída sobre o então polo magnético do planeta, que se move alguns quilômetros por ano. Os EUA têm sete – três permanentes e quatro sazonais –, também em pontos estratégicos. A Amundsen-Scott, uma das que funcionam o ano todo, por exemplo, fica exatamente no Polo Sul geográfico. Já a McMurdo é a maior do continente, com capacidade para 1.258 pessoas e mais de cem construções, incluindo um porto, três aeródromos e um heliporto. A China vem investindo muito na região e tem quatro bases – incluindo Kunlun, a mais alta, a 4 mil metros de altitude, importante para pesquisas astronômicas.

“A presença dos outros países comparada com a nossa é impressionante”, resume o professor Paulo Eduardo Aguiar Saraiva Câmara, da Universidade de Brasília, que já esteve cinco vezes na Antártida. Para ele, essa presença das potências na área deve aumentar cada vez mais porque, com as mudanças climáticas, o aumento do lixo e o aquecimento do planeta, a Antártida pode se tornar o único lugar onde o homem consiga sobreviver no futuro. “Em algum momento da história, as nações vão se voltar para a Antártida, porque os recursos vão se exaurir. Vai acabar a água, vai acabar o petróleo, o gás e as únicas reservas estarão na Antártida. Se você pensar que são quase 14 mi de km², quase duas vezes o tamanho do Brasil, a quantidade de gás natural, petróleo, ouro, intacta, inexplorada, é enorme. Por isso é importante que o Brasil mantenha a presença lá. É o nosso futuro.”

Segundo o professor de Geopolítica da Escola de Guerra Naval, Leonardo Faria de Mattos, o Brasil não tem interesse na exploração comercial dos recursos da Antártida, mas existe o temor de uma corrida desenfreada por recursos minerais no continente que atropele o tratado em vigor. Para ele, considerando o tamanho e o protagonismo do Brasil, é preciso melhorar a posição do País no continente austral.

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“Temos como sociedade de discutir a questão da presença brasileira na Antártida e pensar num segundo passo, que seria a construção de uma segunda estação”, defende. “A China, por exemplo, já está construindo a quinta estação, a Índia tem duas e os dois são países de grande população e com grande interesse na região. A forma de aumentar nosso protagonismo é ampliando nossa presença.”

Ele destaca ainda que uma corrida desenfreada pela exploração mineral da Antártida pode causar graves impactos no clima brasileiro, com reflexos para a agricultura. “Estamos mais próximos da Antártida do que imaginamos. Um navio saindo do porto de Rio Grande chega mais rápido lá do que em Manaus.”

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Fonte de riquezas, Antártida está na mira das potências

Diamantes, proteínas e água doce em abundância chamam a atenção de países como EUA, Rússia e China

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 03h00

Os 14 milhões de km² da Antártida são feitos de diamantes e óleo cru; abrigam fontes quase inesgotáveis de proteínas, uma reserva talvez de até 500 milhões de toneladas – mas, acima de tudo isso, concentram 70% de toda a água doce do planeta. 

Há mais. Países como os Estados Unidos, a Rússia e a China consideram a instalação na área de centrais de monitoramento de satélites – os seus próprios e os do resto do mundo. Poderiam ver e ouvir as máquinas circulando em torno da Terra. As condições técnicas são favoráveis a esse tipo de trabalho de inteligência, e, de quebra, não contrariam os termos do Tratado Antártico e nem dos pactos que tratam das atividades na região – todos vetam o uso militar da região. Entretanto, os chineses operam três estações de rastreamento orbital na Antártida. 

Os russos anunciaram o funcionamento de outras três unidades de sua rede de posicionamento Glonass, uma versão do GPS incorporada aos sistemas de guiagem de mísseis balísticos. Os EUA informam apenas que suas 16 estações antárticas são dedicadas a programas científicos. Em Moscou, o Instituto de Pesquisa 46 anunciou há três meses um bem sucedido teste com o Tirada 2S. Segundo o diretor da agência, Oleg Achasov, é um “neutralizador de satélites” que dispara ondas radioelétricas contra o alvo a partir da superfície.

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Nos anos da Guerra Fria, as forças navais americanas e russas consideravam as rotas polares ao sul da mesma forma como estudavam as do círculo ártico, no norte, para a passagem de navios de combate – destróieres, fragatas e submarinos nucleares. Registros do Departamento de Defesa dos anos 1970 registram planos para que os grandes porta-aviões nucleares da classe Nimitz, de 100 mil toneladas, sejam “adequados à navegação na Antártida”. Houve ainda a disposição para a realização de testes atômicos e instalação de armas estratégicas – mísseis lançados dos polos voariam menos para atingir seus alvos. As iniciativas não prosperaram. A prioridade passou a ser a pauta ambiental.

Os interesses atuais são enormes. Os 53 países que aderiram ao acordo, em vigor há 58 anos, revelam preocupações diversas, da exploração dos prováveis 200 bilhões de barris de petróleo (40 bilhões já comprovados) à extração de metais raros, de diamantes para uso industrial e do cultivo de certos tipos de crustáceos para consumo humano. 

O ambiente permite pesquisas cientificas especializadas de biologia avançada, mas cresceu também em estudos de novos materiais de alta resistência, baixo peso e flexibilidade. Novos medicamentos e soluções em engenharia química são investigados. Para o Brasil, o foco do cenário tático, de acordo com um ex-integrante do Estado Maior da Marinha, “é o de assumir uma posição privilegiada no conhecimento e eventualmente no controle da navegação oceânica e aérea na Antártida, de importância crescente no hemisfério sul e na ligação entre o leste e o oeste”.

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