Sexo: tudo está previsto nos genes?

Será que a idade em que um jovem começa a fazer sexo, o número de parceiros que vai ter na vida e até a felicidade que sente em seu dia a dia são informações que já estavam “escritas” nos genes? Dois grandes estudos divulgados nas últimas semanas investigaram o papel que a genética pode ter em nossas emoções e nossos comportamentos.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2016 | 03h00

No primeiro trabalho, publicado na revista Nature Genetics, pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, avaliaram dados de 380 mil pessoas ao redor do mundo e encontraram cerca de 38 genes (sequências de DNA) associados ao comportamento sexual. Um deles (CADM2) é conhecido por estar relacionado a características de personalidade que envolvem assumir riscos e poderia influenciar o início mais precoce da vida sexual e um maior número de parceiros.

Em sentido oposto, um outro gene (MSRA), relacionado a uma personalidade mais irritável, parece retardar o início da vida sexual. Essas pessoas se tornariam, provavelmente, menos atraentes aos olhos dos parceiros. Em drosófilas (moscas de frutas), o mesmo gene também retarda o comportamento reprodutivo, mas, em compensação, faz com que as mosquinhas vivam mais tempo.

Curiosamente, outro dos genes que influenciaria no sexo está relacionado à cor dos cabelos e às sardas (MC1R). Assim, de acordo com cientistas, homens e mulheres ruivos iniciariam sua vida sexual mais tarde que pessoas com outras cores de cabelo. Sardas, nas mulheres, também adiariam o primeiro contato. As informações foram publicadas pelo jornal inglês Daily Mail.

Apesar de identificar alguns genes que poderiam, em teoria, influenciar no sexo, é bom lembrar que, no campo do comportamento humano, a genética é apenas um dos elementos que interfere em um determinado padrão. As influências sociais do grupo social (amigos, família) e questões econômicas e culturais têm um peso tão ou até mais importante na tomada de decisões.

Os genes poderiam funcionar como uma espécie de linha de base, que tornaria um comportamento ou atitude mais provável, mas eles não seriam os definidores finais do padrão. Aliás, esse é um mecanismo semelhante ao que acontece com doenças humanas e outros traços complexos. Nesses casos, um gene único tem, em geral, um efeito pequeno sobre o resultado final.

De acordo com os pesquisadores, a importância do trabalho é apontar que tanto genes que se relacionam à maturidade física mais precoce como aqueles que influenciam determinadas características de personalidade podem ter um peso no comportamento sexual dos jovens.

De qualquer forma, entender melhor como esse comportamento se orquestra poderia auxiliar tanto na elaboração de políticas públicas importantes em questões de saúde sexual do jovem, como gestação na adolescência, aumento de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e campanhas mais efetivas de prevenção, bem como na redução de seus impactos sociais como evasão escolar, desestruturação familiar, baixa renda, etc.

Felicidade, sim! Em outro artigo, também publicado na revista Nature Genetics, um consórcio de 190 pesquisadores de diversas universidades investigou dados de quase 300 mil pessoas de 17 países e localizou 16 variáveis genéticas que influenciariam a forma como as pessoas enxergam sua vida e a sensação de felicidade que podem ter.

Três dessas variáveis se relacionam com sensação de bem-estar, duas com sintomas depressivos e 11 genes estão associados a neuroticismo (traços de personalidade que fazem a pessoa ter uma leitura mais negativa da vida).

Aqui, novamente, os cientistas reforçam que os genes podem influenciar parcialmente nossa personalidade, mas são as interações sociais e culturais que produzem o resultado final, ou seja, felicidade pode até estar em nossos genes, mas é o ambiente que vai aumentar ou diminuir a chance de a gente se sentir de bem com vida!

Jairo Bouer é psiquiatra

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