GIOVANNA MODE/ESTADÃO
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'Situação do Goeldi é crítica', diz pesquisadora sobre 'museu-irmão' do Nacional

Museu Paraense Emílio Goeldi quase fechou no ano passado por falta de recursos; instituição tem 19 coleções, com mais de 4,5 milhões de itens e, apesar de ter algumas medidas de segurança, carece de mais investimento

Giovana Girardi e Rita Soares, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 03h00

Considerada “instituição irmã” do Museu Nacional, o Museu Paraense Emílio Goeldi, o segundo mais antigo do País, prestes a completar 152 anos, quase fechou no ano passado por falta de recursos. Como ocorreu com todos os órgãos federais, sofreu um contingenciamento de cerca 40% que ameaçou o funcionamento de duas de suas quatro bases em outubro – o Parque Zoobotânico, em Belém, e a Estação Científica Ferreira Penna, na Ilha do Marajó. 

O caso gerou comoção nas redes sociais. Foi criada a campanha SOS Museu Goeldi. O movimento ganhou as redes sociais e o presidente Michel Temer anunciou, via twitter, a liberação de mais R$ 3 milhões para manter as atividades em 2017. Havia o mesmo risco neste ano mas, novamente, com pressão da comunidade, os valores foram recompostos. 

O orçamento, porém, estável há seis anos em torno de R$ 11 milhões a 12 milhões, só dá para manter o básico, e a preocupação dos gestores com a segurança das 19 coleções científicas com mais de 4,5 milhões de itens (metade deles fragmentos arqueológicos) – específicos sobre a Amazônia – é constante. 

São as chamadas reservas técnicas arqueológica e etnográfica que reúnem peças coletadas por pesquisadores desde o século 19 e podem ajudar a contar a História do homem nas Américas. Há, por exemplo, objetos de 120 povos indígenas, registros de aproximadamente 80 línguas, fora as coleções de herbário, biologia, de fósseis, de minerais e rochas, e bibliográficas e documentais .

“Investimentos para segurança a gente só consegue com parcerias. São valores que não têm sido incorporados no orçamento, o que nos deixa apreensivos”, disse ao Estado a pesquisadora Ima Vieira, ex-diretora do museu que assessora a atual gestão.

Ao contrário do Museu Nacional, porém, todas as coleções são separadas por portas corta-fogo, o que garante uma segurança para que um eventual incêndio não se espalhe. O Goeldi também conta com cem hidrantes entre as coleções e um sistema eletrônico de detecção e combate a incêndio.

“Mas são coisas que fomos conseguindo muito vagarosamente e que precisam de revisão constante, de modernização. Eu diria que estamos longe do ideal. É uma situação crítica, porque o orçamento não aumenta na proporção das necessidades. Precisaria ser de R$ 50 milhões a R$ 60 milhões para manter tudo”, complementa. 

“Temos três bases físicas (no Pará), uma coleção viva de mais de 1.700 animais de 80 espécies e de 2 mil plantas de cerca de 500 espécies, pelo menos sete prédios históricos. Não é suficiente”, aponta. “É preciso uma mudança para incorporar tudo isso nos orçamentos das instituições, ou poderemos ter outros problemas como ocorreu no Nacional nos museus brasileiros”, alerta.

Além disso, para fortalecer a instituição é preciso aumentar o quadro de pessoal. Hoje são 237. Seriam necessários pelo menos mais 70. Com a falta de recursos, contudo, o Museu não tem feito concurso para preencher as vagas. Também não tem feito investimentos na estrutura física. Com o incêndio no Rio, o museu paraense é o mais antigo do País e seu acervo ganha ainda mais importância para pesquisadores. 

Relação com o Museu Nacional

Em nota, o Goeldi afirmou que o Museu Nacional, “um dos símbolos da constituição da nação”, “tombou como resultado da falta de investimentos na cultura, ciência e educação”. E lembrou que a história das duas instituições está “imbricada”.

“As trocas de pesquisadores, acervos, documentos e técnicas progrediram no decorrer das décadas. A destruição de grande parte dos acervos do Museu Nacional leva junto também alguns testemunhos da história institucional do Museu Goeldi, como mais de 100 peças arqueológicas coletadas por Domingos Soares Ferreira Penna no século 19”, destaca a direção. 

A instituição diz que o incêndio “deixa a todos em alerta e aumenta a responsabilidade das autoridades na elaboração de políticas públicas de fomento e gestão de ciência, cultura e educação no País.”

Ressaltou ainda que “seu desaparecimento apaga o esforço de gerações, some com testemunhos únicos, afeta a capacidade de construir e consolidar o conhecimento e de narrar histórias locais, regionais, nacionais ou mundiais”. 

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