'Sociedade é hipócrita ao criticar a Igreja'

Julián Herranz, que investigou o Vatileaks, afirma que neopagãos têm 'trave nos olhos'

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL , CIDADE DO VATICANO, O Estado de S. Paulo

02 Março 2013 | 09h17

As sociedades da Europa e da América estão sendo "hipócritas" ao criticar a Igreja, deixando de ver seus próprios defeitos e preferindo acusar a todos os sacerdotes de cometerem "delitos sexuais e de serem corvos que se atacam uns aos outros", afirmou o cardeal espanhol Julián Herranz.

Herranz é um dos três príncipes do Vaticano escolhidos pelo então papa Bento XVI, no ano passado, para elaborar um dossiê sobre a divulgação de informações sigilosas e os escândalos na Santa Sé depois que o ex-mordomo do pontífice furtou documentos do apartamento papal.

Em entrevista ao Estado, ele, por proibição estrita do agora papa emérito, não falou nada sobre a investigação, mas não poupou críticas às sociedades que, para ele, passam por um processo de "neopaganização".

O vazamento - que ficou conhecido como Vatileaks - causou um profundo mal-estar na Igreja, obrigando o papa a abrir investigações para determinar as causas do escape de informações confidenciais. Nos últimos dias de seu pontificado, Bento XVI recebeu o relatório de Herranz e tomou a decisão de mantê-lo em sigilo absoluto.

Apenas seu sucessor o receberá e terá a função de lidar com alguns dos casos mais graves já registrados na Igreja nos últimos anos, ainda que cardeais brasileiros tenham declarado nos últimos dias que gostariam de ver seu conteúdo antes do início das votações no conclave, justamente para que ele possa ajudar na tomada de decisão.

Herranz rejeita a tese de que foi o conteúdo de seu informe que fez o papa renunciar, como apontou a imprensa italiana na semana passada. Segundo os jornais em Roma, o dossiê de 300 páginas traria informações sobre uma rede de prostituição homossexual no Vaticano, corrupção e disputa de poder.

"Querem dramatizar as coisas", insistiu. "Tentar projetar a decisão de um papa - que depois de 2 mil anos de história da Igreja renuncia ao governo - como uma questão dessas é algo ridículo. É ofensivo", disse.

"O papa disse que sua renúncia foi um ato livre de consciência, depois de meditar muito e sabendo da gravidade de sua decisão", lembrou o cardeal.

Herranz, que não votará no conclave por já ter passado da idade máxima estabelecida - 80 anos -, diz acreditar que Bento XVI renunciou por dois motivos: a redução do vigor físico e mental e o reconhecimento de que a "barca de Pedro (o papado) precisava de alguém com firmeza no timão diante de um mar com muita turbulência".

Na avaliação do espanhol, que elaborou o informe com a ajuda de outros dois cardeais da confiança de Bento XVI, uma das mensagens do pontífice emérito nos últimos dias foi justamente àqueles que se "dedicam a apenas criticar a Igreja".

"Há muitos que se empenham só em acusá-la e em ver só defeitos", disse. "É a parábola evangélica, que só vê o cisco no olho dos outros, porém não repara na trave que tens no teu", insistiu. "Uma humanidade na qual há muitas pessoas e famílias - e me refiro às sociedades europeia e americana - que estão tentando existir como se Deus não existisse, dando as costas ao Senhor."

"Essa mesma sociedade olha a Igreja e começa a acusá-la, como se todos os sacerdotes fossem gente que comete delitos sexuais, como se todos fossem corvos que se atacam uns aos outros e víboras que se movem. Isso é hipocrisia. Isso é não ver o cisco no próprio olho de uma sociedade que está se neopaganizando e que se está degradando espiritualmente", declarou.

Sobre as declarações do papa nos últimos dias de seu reinado, pedindo a união da Igreja, Herranz afirmou que a maior frustração de Bento XVI foi ter visto a partida dos tradicionalistas. "Isso foi o que mais lhe fez sofrer."

"Também ocorre que questões ideológicas e políticas podem dividir os cristãos, mas não a Igreja. Não é justo que pessoas do mesmo credo se coloquem umas contra as outras por questões temporais e egoísticas. Foi isso que o fez sofrer", explicou.

Conclave. Sobre o próximo papa, o cardeal opinou que a renovação na Igreja é importante. Ele acredita, porém, que essa escolha não será feita com base em uma personalidade, cor ou origem. "Temos de ter alguém com profunda espiritualidade e que saiba transmitir isso ao mundo", declarou. "Não há uma crise de governabilidade na Igreja."

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