J. Nichols/Nasa e Agência Espacial Europeia
J. Nichols/Nasa e Agência Espacial Europeia

Sonda chega a Júpiter para revelar planeta

Nave Juno, da Nasa, entrará na madrugada desta terça no campo magnético e deve mostrar como se formou o Sistema Solar

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2016 | 04h00

SÃO PAULO - Após viajar pelo espaço por cinco anos, a nave Juno, da Nasa, chegará ao momento mais crítico de sua jornada à 0h18 desta terça-feira, 5, ao entrar na órbita de Júpiter. O principal objetivo da missão é descobrir o que há sob as espessas nuvens de gás que recobrem a atmosfera do planeta gigante, desvendando importantes informações sobre as origens do próprio Sistema Solar – e trazendo imagens inéditas.

Quando entrar na órbita de Júpiter, na madrugada desta terça-feira, a sonda Juno já terá percorrido cerca de 2,8 bilhões de quilômetros. A partir de então, ela viajará mais 560 milhões de quilômetros, por mais de um ano e meio, realizando 37 voltas completas em torno do planeta obtendo dados sobre a atmosfera e campo magnético. Em fevereiro de 2018, a nave mergulhará na atmosfera de Júpiter para ser destruída pela pressão.

A Nasa já enviou diversas sondas a Júpiter, mas nenhuma chegou tão perto de sua superfície como a Juno está programada para fazer: a nave passará a menos de 5 mil quilômetros do topo das nuvens. Até agora, o recorde de aproximação é o da sonda Pioneer 11, lançada em 1974, que realizou um sobrevoo a 43 mil quilômetros da superfície joviana. Com isso, a Juno será capaz de observar o que jamais foi visto por ninguém.

“Júpiter tem um campo magnético extremamente intenso e isso forma uma espécie de bolha que impede que obtenhamos informações de sua atmosfera utilizando ondas de rádio ou microondas. É preciso inserir a nave no campo magnético, porque assim tudo o que estiver lá dentro – incluindo o próprio planeta – será revelado”, disse o astrônomo Cássio Barbosa, do Centro Universitário FEI.

O astrônomo explicou que a entrada na órbita do planeta gigante é o momento crítico da missão: caso a nave falhe em sua inserção, não haverá resultado científico algum. “Todos os instrumentos da nave ficam desligados. Se algo desse errado, seria uma perda imensa.”

Hidrogênio. Segundo Barbosa, o planeta, que tem uma massa 300 vezes maior que a da Terra, gira rapidamente, completando uma volta em torno de si mesmo a cada 10 horas, e funciona como um dínamo. Acredita-se também que nas profundezas de sua atmosfera, sob pressões imensas, o hidrogênio é comprimido até se tornar um líquido conhecido como hidrogênio metálico, que age como condutor elétrico. Tudo isso produz o fortíssimo campo magnético.

Os cientistas acreditam que Júpiter é o planeta mais antigo do Sistema Solar, pois, assim como o Sol, é formado essencialmente por hidrogênio e hélio. Isso leva a crer que o planeta gigante se formou cedo, capturando a maior parte da matéria que não foi incorporada ao Sol recém-formado. Mas não se sabe como isso aconteceu.

“Com a Juno, os cientistas poderão usar micro-ondas para estimar a quantidade de vapor de água existente na atmosfera de Júpiter. Esse número será usado como parâmetro para saber se o planeta nasceu no lugar onde está hoje, ou se teve sua origem em outro ponto do Sistema Solar e migrou mais tarde”, afirmou Barbosa.

Caso Júpiter tenha mais água do que o esperado para sua posição, significa que ele estava mais longe do Sol na formação e depois se aproximou. Caso tenha menos água que o previsto, provavelmente se formou próximo do Sol e depois se afastou. “As informações que a nave trará sobre essa questão são fundamentais para descobrir qual é a teoria certa para a formação do Sistema Solar”, disse.

Júpiter emite grandes quantidades de radiação infravermelha, de rádio e de microondas. Mas só as frequências de microondas podem ser detectadas pelos equipamentos da Juno através das espessas camadas de nuvens sobre a superfície do planeta. Além dos radiômetros de microondas, no entanto, a nave também é equipada com câmeras que farão imagens inéditas do planeta.

"A missão descobrirá se o planeta gasoso tem um núcleo sólido, mapeará seu campo magnético e medirá a quantidade de água e amônia em sua atmosfera profunda. Originalmente a nave não levaria nenhuma câmera digital, porque sua instrumentação já era suficiente para fazer as medições necessárias. Mas a pressão do público foi tão grande que a Nasa incluiu uma câmera", afirmou Barbosa. 

Missão sem igual. A sonda Juno, de quatro toneladas, fez a maior parte de sua viagem na velocidade impressionante de 265 mil quilômetros por hora, antes de reduzir a marcha para penetrar na órbita de Júpiter. Para suportar a violenta carga de radiações emitidas pelo planeta - e os ventos que chegam a 500 quilômetros por hora em sua atmosfera -,  a sonda é equipada com um escudo de titânio que protegerá seus avançados instrumentos científicos. 

De acordo com Paulo Bretones, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador da Comissão de Ensino e Divulgação da Sociedade Astronômica Brasileira, a nave é impulsionada por energia solar, absorvida por três painéis de cerca de 10 metros cada um. 

Segundo ele, como Júpiter está cinco vezes mais longe do Sol que a Terra, recebe 25 vezes menos energia solar. Por isso os painéis precisam ser grandes e muito eficientes. Outro fator que ajuda na economia de energia da nave é sua órbita polar: ela gira em torno dos polos de Júpiter, sem passar por sua sombra.

"As 18.698 células solares de seus paineis poderiam gerar na Terra 14 quilowatts de eletricidade. Mas em Júpiter, como a luz do Sol é muito mais fraca, os painéis solares - os melhores já desenvolvidos - só poderão gerar 500 watts. Trata-se do engenho espacial movido a energia solar que conseguiu chegar mais longe", disse Bretones.

Todas as missões anteriores a Júpiter, segundo Bretones, foram realizadas por sondas que utilizaram energia nuclear para o funcionamento dos seus instrumentos: a Pioneer 10, em 1973, a Pioneer 11, em 1974, a Voyager 1 e 2, em 1979, a Ulysses, em 1992, a Cassini em 2000 e a Galileo de 1995 a 2003. 

A missão teve custo total de US$ 1,1 bilhão de dólares. "Isso ainda representa pouco tendo em vista o que os Estados Unidos gastam com o complexo industrial militar, que é da ordem de US$ 300 bilhões por ano", afirmou Bretones.

Segundo o astrônomo, ao observar o que existe sob o manto gasoso de nuvens que recobre Júpiter, a missão Juno vai revelar mistérios que persistem desde a primeira vez em que o planeta foi observado, por Galileu Galilei, no século 17.

"Sendo assim, faz muito sentido o nome de Juno, que vem da mitologia grega e romana. Segundo a lenda, o rei dos deuses criou um véu de nuvens em torno de si mesmo para esconder suas infidelidades, mas a ciumenta deusa Juno conseguiu enxergar através das nuvens e revelar a natureza de Júpiter", explicou Bretones.

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