Soneca depois da aula melhora aprendizado

Pesquisa piloto feita em escola pública de Natal indica que dormir após estudar ajuda a reter os conteúdos

Afra Balazina, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2010 | 00h00

Dormir após uma aula pode ajudar estudantes a memorizar o que foi ensinado, segundo projeto-piloto realizado com 250 alunos de escolas públicas de Natal.

 

"Observamos que a soneca após a aula tem um benefício cognitivo", afirma Sidarta Ribeiro, neurocientista do Instituto de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

 

Depois de uma aula de dez minutos, uma parte da turma foi assistir a outra aula, enquanto o restante foi dormir por duas horas. Cinco dias depois, foi feita uma prova sobre o tema apresentado. Os alunos que dormiram se saíram melhor. Aqueles que não conseguiram dormir, mas ficaram quietos, também tiveram desempenho superior a quem teve de voltar a estudar.

 

O assunto foi tema de uma conferência ontem na 62.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Natal.

 

O processo foi estudado também com roedores. A conclusão é que o sono de ondas lentas e o sono REM, quando se sonha, têm funções complementares. O primeiro é o responsável pela reverberação da memória, e o segundo, pelo seu armazenamento. O próximo passo será avaliar por seis meses os alunos em uma disciplina específica.

 

Para o neurocientista, é preciso ter mais subsídios sobre o benefício antes de implantar a soneca na escola - principalmente porque isso pode acarretar um período menor de aulas. Mas, se isso acontecer, ele acredita que as escolas em geral não serão contra a proposta.

 

"O pessoal da Educação está super aberto. A secretaria já queria fazer uma experiência por meio ano em todo o Estado", afirma o pesquisador.

 

O professor tem uma experiência pessoal com o assunto: quando foi para os Estados Unidos fazer doutorado, teve dificuldade com a língua e com parte do conteúdo. "Dormia 16 horas por dia, tinha muito sono. Achei que meu corpo estava me sabotando. Mas, dois meses depois, estava completamente adaptado e percebi que o sono me ajudou", conta. Segundo ele, foi a partir de então que ele resolver estudar o sono e os sonhos.

 

Prova. Em outra pesquisa da qual o neurocientista faz parte, os sonhos dos vestibulandos estão sendo avaliados. A suspeita é que, quando eles têm pesadelos ou acham que foram mal na prova, sentem-se inseguros e seu desempenho piora. Quando sonham com os conteúdos que estudaram para a prova, tendem a se sair melhor no exame do dia seguinte.

 

BENEFÍCIO

 

Sidarta Ribeiro, neurocientista

 

“O sono tem a função de conservar energia para o organismo. Mas também funciona para facilitar a reestruturação das memórias. Leonardo da Vinci, por exemplo, dormia meia hora várias vezes ao dia, principalmente depois de uma atividade de estudo. A gente também aprende dormindo.”

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