NASA/JPL-Caltech
NASA/JPL-Caltech

Telescópio espacial Spitzer termina missão de descoberta após 16 anos

O telescópio espacial de baixo custo e longa duração encontrou planetas, descobriu um novo anel de Saturno e expandiu nosso conhecimento da história cósmica

Adam Mann, The New York Times

10 de fevereiro de 2020 | 06h00

No dia 30 de janeiro, o telescópio espacial Spitzer, da Nasa, encerrou as transmissões e mergulhou no silêncio. Mas, mesmo durante sua última semana, a espaçonave fez observações únicas. O telescópio, do tamanho de um carro, acompanha a Terra em sua órbita ao redor do Sol, vindo logo atrás a 254 milhões de quilômetros do planeta. Recentemente, fazia suas observações com olhos infravermelhos, tomando medições delicadas de pequenas partículas de poeira fina espacial entre os planetas no sistema solar. 

As imagens permitirão que os pesquisadores compreendam melhor nossa vizinhança celestial, ao mesmo tempo informando modelos de mundos que orbitam outros planetas e dando uma ideia de como teriam sido os primórdios do universo. Desde o seu lançamento, em 25 de agosto de 2003, o Spitzer nos proporcionou novos vislumbres de galáxias distantes, estrelas recém-nascidas e exoplanetas próximos, bem como asteroides, cometas e outros objetos.

Suas câmeras infravermelhas observaram o universo a uma luz que os sentidos humanos não captam. “O Spitzer investigou praticamente todos os campos existentes”, disse a astrônoma Daniela Calzetti, da Universidade de Massachusetts, em Amherst, que usou o telescópio para estudar a evolução galática.

Entre as descobertas mais destacadas do Spitzer temos: um anel nunca antes visto em torno de Saturno; a identificação de um momento em que a formação de estrelas atingiu seu ápice, há 10 bilhões de anos; e a localização de quatro dos sete planetas de tamanho proporcional ao da Terra que orbitam a estrela Trappist-1.

A decisão de desativar o Spitzer foi tomada em 2016, quando a Nasa analisou a produção científica diante do custo de manutenção e operação. Os administradores do programa decidiram encerrar a missão da espaçonave em 2019, mais ou menos um ano depois do lançamento marcado do Telescópio Espacial James Webb, capaz de fazer observações em infravermelho.

Mas problemas tecnológicos atrasaram o lançamento do Webb, atualmente previsto para março de 2021. Em resposta, o Spitzer recebeu uma prorrogação, até janeiro de 2020. A Nasa se recusou a prorrogar a missão ainda mais, citando as complexidades da comunicação com a espaçonave.

O Spitzer custa à Nasa menos de US$ 14 milhões ao ano, e o custo total de suas operações é calculado na casa do US$ 1,3 bilhão, uma pechincha se comparado ao custo cumulativo do Telescópio Espacial Hubble, estimado em US$ 8 bilhões. Informações do telescópio foram usadas em mais de 8,7 mil projetos de pesquisa e, se calcularmos seu impacto científico por ano de operação, o desempenho do Spitzer supera o dos demais telescópios espaciais.

Mas, com o passar do tempo, o Spitzer se afasta cada vez mais da Terra. Para se comunicar com o controle da Nasa na Califórnia, o Spitzer precisa inclinar e apontar sua antena, reduzindo a captação de energia solar e expondo a parte inferior da espaçonave ao Sol, causando distorções nas imagens. Em algum momento do futuro próximo, a geometria da posição do Sol, da Terra e do telescópio vai tornar a comunicação com o observatório e a administração do telescópio difíceis demais, de acordo com Paul Hertz, diretor da divisão de astrofísica da NASA.

Os operadores da espaçonave baixaram os últimos dados científicos e de engenharia para o observatório e transmitiram os comandos definitivos de desativação no dia 30 de janeiro, pouco antes das 17h (horário da costa leste dos EUA). Com os comandos, o telescópio foi colocado em hibernação, ou modo de segurança. Passará o restante de seus dias à deriva pelo espaço.

O Webb vai enxergar ainda mais longe e ajudará a determinar como foi o processo de formação das primeiras estrelas e galáxias. Muitos outros planetas serão sondados em busca dos elementos essenciais para o surgimento de organismos vivos. Independentemente disso, o Spitzer deixa um vasto legado de dados que serão minerados em busca de novas descobertas.

“O Spitzer alterou fundamentalmente nossa forma de olhar para o universo enquanto sociedade”, disse Sean Carey, da equipe sênior de astronomia do Centro Científico Spitzer do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), acrescentando que, no próximo ano, seu filho estará no sexto ano escolar, no qual o currículo de ciências inclui informações a respeito do sistema Trappist-1. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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