Sua casa já foi floresta

Imagine só: Se você é uma das milhões de pessoas que vivem nos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, no litoral do Nordeste ou até no interior do Piauí, pare e olhe à sua volta. Tudo que você vê já foi mata atlântica - a sua casa, seu banheiro, sua rua, aqueles prédios enormes da Avenida Paulista, a cozinha do seu restaurante favorito ... tudo!   Mais de 60% da população brasileira vive em cidades que foram construídas sobre a mata atlântica. O resultado, todo mundo já sabe, ou pelo menos deveria saber: 93% de uma das florestas tropicais mais ricas do planeta foi para o espaço. Desapareceu.   Hoje vivemos tão distanciados da natureza, isolados em nossas selvas de pedra artificiais, que fica até difícil imaginar o que isso significa. Mas é impressionante. Sabe aquelas florestas maravilhosas que você vê na Serra do Mar, quando desce para o litoral no fim de semana (no caso dos paulistanos)?   Pois é: São Paulo inteira já foi assim. Na verdade, o Estado inteiro já foi assim. Melhor ainda: 15% do território brasileiro já foi assim. Se não acredita, dá uma olhada nesses mapas, do SOS Mata Atlântica e do WWF. Tudo aquilo que se tenta evitar que aconteça hoje na Amazônia já aconteceu um dia na mata atlântica: a devastação, as queimadas, a ocupação predatória e autodestrutiva dos recursos naturais. E sejamos honestos: quase tudo que sobrou só sobrou porque está em cima de morros ou em lugares de difícil acesso. Porque se fosse plano, também já era - tinha virado pasto, estrada, cidade, faz tempo. É incrível pensar que tudo o que é concreto e asfalto hoje já foi floresta. O quanto nós transformamos o ambiente em que vivemos. Mesmo se você mora no centro de São Paulo, pode ter certeza de que onças já passaram pelo seu quintal. Quem sabe a toca de uma delas não ficava onde hoje está a sua cama? E quantos macacos já não passaram pelo seu telhado! Pelo menos, não foi tudo por nada, se isso serve de consolo. A ex-mata atlântica é onde produzimos nossa comida, onde instalamos nossas indústrias, nossos shopping centers, nossas fazendas, nossos biocombustíveis. Não defendo de maneira alguma que deveríamos derrubar nossas casas e entregar tudo de volta à natureza. Assim como não acho que deveríamos parar de tomar banho para economizar água. Eu mesmo adoro passear na mata sempre que possível, mas também adoro meu concretinho. Adoro a vida na cidade, e ela precisa ser construída em algum lugar. Mas será que não dava para derrubar 80%, em vez de 93%? Será que não dava para ter deixado um pouco mais de verde e um pouquinho menos de concreto? Será que não dava para tomar banho um pouquinho mais rápido? Quem sabe assim nossos rios não estariam tão assoreados, nossa água não estaria tão suja, nosso ar estaria mais transparente e nossas cidades não seriam ilhas tão quentes de calor. Quem sabe, milhares e milhares de espécies não teriam sido extintas sem que tivéssemos a mínima chance de conhecê-las ou estudá-las. Um dos segredinhos que muita gente não sabe é que a mata atlântica, na verdade, tem mais espécies por metro quadrado do que a Amazônia. A diferença é que a Amazônia é gigantesca, então, quantitativamente, não há concorrente para ela. Mas imagine se a mata atlântica estivesse inteira! Teríamos duas Amazônias em vez de uma. Esta semana, dia 27, comemora-se o Dia da Mata Atlântica. Ela merece ser comemorada. Pense nisso a próxima vez que olhar para o seu quintal. Ele já foi uma selva de verdade. 

26 de maio de 2008 | 13h55

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