Suor e cerveja de mosca

Ao colocar um gole de cerveja na boca e esperar ela esquentar, você está imitando uma mosca, mas como é bem-educado, não vai depois cuspir a cerveja no copo, colocar o copo na geladeira e repetir o procedimento

O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 04h10

Os músculos não são diferentes de motores de carro: ambos transformam energia química em movimento. Em um motor, a energia química é a gasolina e o movimento, a rotação das rodas. O motor queima gasolina para mover as rodas. Em um ser vivo, a energia química é uma molécula chamada ATP, produzida com base nos alimentos, e o movimento é o bater das asas e do coração, ou o andar. O corpo queima ATP para gerar movimento. Tanto nos motores quanto nos seres vivos, a transformação da energia química em movimento não é eficiente, e parte da energia é liberada na forma de calor. É por isso que motores e seres vivos esquentam quando muito demandados, e que os carros usam radiadores para esfriar o motor. 

Nos seres vivos surgiram várias soluções para resfriar o corpo. Nos elefantes, as orelhas funcionam como radiadores e o sangue faz o papel da água. No nosso caso, transpiramos. Quando ficamos cobertos de suor, parte da água no suor evapora, passando do estado líquido para o gasoso, em um processo que consome calor. Durante a evaporação, o calor trazido pelo sangue até a pele é transferido para o suor, resfriando nosso corpo. Como você deve ter notado, uma brisa fresca acelera a evaporação e, consequentemente, o resfriamento. Já quando o dia está úmido e quente a evaporação é mais lenta e passamos mais calor. 

A novidade é que um grupo de cientistas brasileiros descobriu um novo sistema de refrigeração que é usado pelos animais.

Os insetos são recobertos por um esqueleto rígido e impermeável a líquidos, portanto produzir suor não é possível. Mas no caso das moscas varejeiras (Crysomia megacephala), aquelas horríveis que rondam animais mortos, foi observado que elas produzem uma gota de “cuspe” que fica pendurada para fora da boca (chamada proboscis) por um tempo e depois é sugada de volta para o interior da boca. Esse processo se repete a cada 30 segundos. Parecem aquelas crianças pequenas que se divertem com o cuspe e são advertidas pelos pais.

Os cientistas filmaram essas moscas com uma câmara de infravermelho. Com essas câmaras é possível observar e medir a temperatura do objeto filmado. Você já deve ter visto imagens obtidas com essas câmeras em filmes de espionagem. No escuro, o herói consegue ver um vulto vermelho (quente) se movimentando contra um fundo cinza (frio). Após filmar as moscas colocando para fora e para dentro essas gotas de líquido, os cientistas calcularam a temperatura da gota e das diferentes partes da mosca. O que eles observaram é que a gota, após ser colocada para fora, resfria rapidamente até uma temperatura 8ºC abaixo da temperatura ambiente. Quando a gota já fria é levada para dentro da boca, ela resfria a cabeça da mosca em até 1°C, e resfria mais lentamente a parte do meio (tórax) e a de trás da mosca (abdome). Ao repetir essa manobra, diversas vezes a mosca consegue diminuir sua temperatura interna em até 3ºC. Quando o ar está quente e úmido, a mosca aumenta o ritmo do entra e sai das gotas.

O que está acontecendo é muito semelhante ao que acontece com o suor na nossa pele. Quando a gota está exposta ao ar, parte dela evapora, o que consome o calor presente na própria gota. Uma vez resfriada, a gota é levada para dentro da boca, e aí ela esquenta ao captar o calor do corpo da mosca. Uma vez quente, a gota é levada para fora novamente para esfriar. O mecanismo de resfriamento é o mesmo usado por nós, mas, no nosso caso, as gotas de suor ficam expostas ao mesmo tempo à atmosfera e à pele quente, enquanto que no caso da mosca esse processo é dividido em dois tempos, primeiro esfria a gota e depois a gota resfria o corpo da mosca.

Na verdade, esse método de primeiro resfriar um líquido e depois ingeri-lo para que ele resfrie o corpo é exatamente o que fazemos quando tomamos uma cerveja gelada. Ao descer pela garganta, a cerveja esquenta e o corpo esfria. Como você pode ver, o princípio físico utilizado pelos seres humanos e pelas moscas são os mesmos: primeiro você usa a evaporação para esfriar um líquido; depois, o líquido resfria o corpo. 

Ao colocar um gole de cerveja na boca e esperar ela esquentar, você está imitando uma mosca, mas como é bem-educado, não vai depois cuspir a cerveja no copo, colocar o copo na geladeira e repetir o procedimento.

MAIS INFORMAÇÕES: DROPLET BUBBLING EVAPORATIVELY COOLS A BLOWFLY. SCI REPORTS, VOL. 8 PÁG. 5464 (2018)

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