Supertelescópio confirma buraco negro no centro da Via-Láctea

Análise mais detalhada já feita da fonte de radiação conhecida como Sagitário A* é consistente com abismo

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

03 de setembro de 2008 | 15h10

Observações feitas por um supertelescópio virtual, com definição mil vezes superior à do Hubble, confirmam que o núcleo da Via-Láctea é ocupado por um enorme buraco negro, com 4 milhões de vezes a massa do Sol. Buracos negros são corpos de massa tão grande que nada é capaz de escapar de sua gravidade, nem mesmo raios de luz.   Antimatéria nasce em estrelas binárias no centro da galáxia Ciência mais perto de resolver o enigma dos raios cósmicos   A idéia de que um desses abismos espaciais habita o centro da galáxia não é nova, mas até a realização das observações do supertelescópio, descritas na edição desta semana da revista Nature, as evidências não permitiam descartar explicações alternativas para a grande concentração de massa detectada no coração da Via-Láctea.   "Os resultados de tamanho e densidade que obtivemos são os mais próximos dos valores necessários para um buraco negro que já obtivemos", diz o principal autor do trabalho, Sheperd Doeleman, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).   Em comentário que acompanha o artigo na Nature, o astrônomo Christopher Reynolds, que não tomou parte no estudo, diz que, diante dos resultados de Doeleman, "apenas um desvio grosseiro do comportamento da própria gravidade, em relação ao previsto pela Relatividade Geral, poderia invalidar o argumento a favor de um buraco negro". A Teoria da Relatividade Geral foi proposta por Albert Einstein, nas primeiras décadas do século 20, para explicar a gravidade.   A equipe de Doeleman usou uma técnica de interferometria - na qual ondas vindas de uma mesma fonte mas captadas em diferentes locais são combinadas para criar um único sinal, mais forte - a fim de juntar observações feitas por radiotelescópios localizados na parte continental dos Estados Unidos e no Havaí.   O resultado foi um radiotelescópio virtual equivalente a um instrumento gigantesco, com uma antena de mais de 4.000 km de diâmetro, que fez as leituras mais precisas já realizadas de Sagitário A* ("A-estrela"), uma fonte de radiação localizada perto do centro da galáxia.   Os autores do trabalho concluíram que essa fonte deve estar ou no disco de matéria que circunda o abismo - "gás quente que orbita e, no fim, cai no objeto central", como explica Reynolds - ou num jato de matéria expelido pelo buraco negro. "Observações futuras, com telescópios virtuais ainda maiores, poderão terminar exatamente o que faz Sagitário A* acender", acredita Doeleman.   O trabalho de Doeleman determinou que Sagitário A* tem 50 milhões de quilômetros - um terço da distância entre a Terra e o Sol -, o que é consistente com a presença de um buraco negro ali. "Modelos para um buraco negro  no centro da galáxia prevêem um tamanho para Sagitário A* que é muito próximo do que achamos. Nossos resultados são mais evidência de que estamos olhando para um buraco negro", diz o pesquisador do MIT.   As observações indicam ainda que a fonte de radiação não está centrada no buraco negro, mas encontra-se bem perto do horizonte de eventos, que é o limite a partir do qual nada pode escapar da atração do abismo.   "Acredita-se que a maioria das galáxias tenha buracos negros em seus centros, mas como Sagitário A* está na nossa galáxia, representa nossa melhor oportunidade de observar o que acontece num horizonte de eventos", diz o cientista.   Doeleman pretende refinar a técnica do supertelescópio virtual para detectar o núcleo do buraco negro gigante e determinar suas propriedades com precisão. "Tentaremos observar a 'sombra', ou ausência de luz que, segundo previsões, ocorre diretamente na direção do centro do buraco negro. Essa seria uma forma de medir seu tamanho".   O cientista espera trazer mais antenas para seu telescópio virtual, a fim de obter imagens de maior qualidade da região que cerca o núcleo da Via-Láctea.

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