Tarefas do lar

Entre aves, o cuidado da prole é dividido entre o casal de maneira igualitária

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2016 | 03h00

Uma das vantagens da monogamia é que os pais dividem a tarefa de cuidar da prole. Entre seres humanos essa divisão é fonte inesgotável de negociações. E entre aves o que acontece?

Aves que habitam a beira do mar são monogâmicas e dividem a tarefa de chocar os ovos. Os ovos são colocados em ninhos no solo e precisam ser chocados continuamente. Como não existe a figura da avó ou da babá entre as aves, os dois pais se revezam sentados no ninho.

Um grupo de cientistas estudou como essa divisão de tarefas é feita em 32 espécies, em 91 populações de aves espalhadas por dezenas de locais, em praias que vão desde o norte do Alasca e passam por Ásia, Europa e América Central. Os dados foram coletados em 729 ninhos entre 1994 e 2015.

Entre os métodos usados para saber quem estava no ninho os cientistas colocaram minichips de RFID (aqueles que colocamos no vidro do carro para usar o Sem Parar) colados ou nas penas ou em anéis colocados na perna das aves. No ninho era colocado um detector (como o que tem nos postos de pedágio) acoplado a um sensor de temperatura. Tudo isso ligado a um rádio que enviava as informações aos cientistas. O RFID informava qual dos pais estava no ninho e o sensor de temperatura confirmava a informação.

Cada um dos 729 ninhos foi monitorado durante toda a incubação. Os pais se revezavam, enquanto um chocava o outro se alimentava e logo trocavam de função. Os dados são do tipo: macho no ninho por 2 horas, troca, fêmea no ninho por 3 horas, troca, e assim por diante. 

A partir desses dados foi possível calcular o tempo de cada pássaro no ninho de forma contínua e o período em que o padrão de troca se repete. Imagine um casal que se reveza da seguinte maneira: 12 horas fica o macho e 12 horas, a fêmea. No caso o tempo é 12 horas e o padrão se repete a cada 24 horas. 

O que os cientistas descobriram é que esses dois parâmetros variam muito. Em algumas espécies o tempo que cada um fica no ninho é de menos de 1 hora e logo trocam. Em outras espécies o tempo chega a 50 horas. Geralmente esse tempo varia entre 1 e 19 horas. O período em que o padrão se repete varia de 2 a 43 horas. Outra descoberta é a divisão é igualitária, machos e fêmeas passam o mesmo tempo sentados nos ovos.

Como esse padrão de revezamento não segue precisamente o padrão de dia e noite (períodos de 24 horas), os cientistas tentaram descobrir o que determinava o padrão seguido pelas espécies. Primeiramente, imaginaram que talvez dependesse do peso do animal ou do seu ritmo metabólico. Animais pequenos e com metabolismo alto precisam comer com mais frequência e provavelmente se revezariam no ninho com maior frequência. Analisando os dados, os cientistas descobriram que isso não explicava a variabilidade.

Depois de testarem várias explicações, eles descobriram a solução. Ela é relacionada ao comportamento de cada espécie com relação aos predadores. Parte dessas aves protege seus ovos camuflando o ninho. Elas possuem penas cuja cor e padrão se confundem com o solo onde está o ninho. Outras tentam afastar os predadores voando em sua direção de maneira ameaçadora. O que os cientistas descobriram é que as aves que usam a camuflagem ficam muito mais tempo no ninho enquanto que as que atacam os predadores tendem a se revezar com maior frequência.

Esse estudo demonstra que entre as aves o trabalho de cuidar da prole é dividido entre o casal de maneira igualitária em todas as espécies. Mostra também que o comportamento do casal não está relacionado ao que é melhor para os adultos, como por exemplo as necessidades nutricionais, mas é definido pelo que é melhor para garantir a sobrevivência do filhote. Se eu estou bem camuflado fico horas quietinho, com fome, mas garanto que o ninho não será descoberto. Se minha tática é espantar os bandidos, troco com meu parceiro quantas vezes for necessário para garantir a sobrevivência do ovo. Aves são muito diferentes de seres humanos, mas não deixa de ser interessante entender como elas dividem o trabalho do lar.

MAIS INFORMAÇÕES: UNEXPECTED DIVERSITY IN SOCIALLY SYNCHRONIZED RHYTHMS OF SHOREBIRDS. NATURE (IN PRESS) 2016 

* É BIÓLOGO

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