Técnica moderna torna carta de 140 anos legível após quase um século

Texto escrito na África pelo explorador David Livingstone é restaurado depois de ser redescoberto

Associated Press

02 Julho 2010 | 16h00

Texto da carta, escrita com suco de fruta em página de jornal, recuperada com tecnologia moderna. AP

 

O conteúdo de uma carta ilegível escrita pelo famoso explorador vitoriano Dr. David Livingstone finalmente foi decifrado, informa uma universidade britânica, quase 140 anos depois de ele ter escrito sobre seu temor de não deixar a África vivo.

 

Pesquisadores dizem que a carta - que exigiu tecnologia de ponta para ser decifrada - ajuda a compor o retrato de um homem tradicionalmente visto como um herói destemido, ao revelar as dúvidas que atormentavam o missionário-explorador em um de seus piores momentos.

 

"Estou terrivelmente abatido, mas isso é apenas para seus olhos", escreveu Livingstone ao amigo Horace Waller. "Duvido que viverei para vê-lo de novo".

 

Livingstone era um herói nacional quando partiu para encontrar a nascente do rio Nilo em 1869, mas no momento em que escreveu a carta de quatro páginas, encontrava-se no ponto mais baixo de sua vida profissional, diz Debbie Harrison, pesquisadora da Universidade Birkbeck de Londres.

 

O explorador estava incapaz de deixar o vilarejo de Bambarre, onde hoje é território congolês, em fevereiro de 1871. Estava muito longe de sua meta, a maior parte dos membros de sua expedição havia morrido ou desertado e ele sofria dos efeitos de pneumonia, febre e úlceras tropicais - uma condição que ataca a pele e a carne.

 

Para piorar, Livingstone, um abolicionista convicto, viu-se forçado a aceitar ajuda de traficantes de escravos enquanto aguardava apoio vindo do exterior. Acamado por semanas, leu a Bíblia diversas vezes e começou a delirar. "ele tinha ficado meio louco nessa época", disse Debbie.

 

Na Inglaterra, os amigos de Livingstone preocupavam-se. Ninguém tivera notícias dele em anos, e grupos de busca partiram para o interior da África para descobrir o que havia ocorrido com ele. O explorador acabou localizado perto da margem oriental di Lago Tanganica pelo jornalista Henry Morton Stanley, cuja frase memorável, "Dr. Livingstone, eu presumo?", imortalizou o encontro.

 

Mas Livingstone recusou-se a deixar a África, continuando em sua busca obsessiva pela fonte do rio. Seu aviso a Waller foi profético: ele morreu em maio de 1873, em Chitambo, hoje no território da Zâmbia.

Não se sabe como a carta de Livingstone deixou a África, embora presuma-se que Stanley a tenha levado para a Inglaterra. O documento desapareceu por cerca de um século, até reaparecer num leilão em 1966.

 

Mas ela estava indecifrável. Com pouco papel e sem acesso a tinta, Livingstone arrancou páginas de livros e jornais e escreveu com um pigmento improvisado das sementes de uma fruta local. Um século depois, a tinta vegetal havia esmaecido até tornar-se quase invisível, um problema agravado pelo papel quebradiço e pela caligrafia caótica de Livingstone.

 

Uma equipe de cientistas e estudiosos analisou o papel frágil, extraindo cuidadosamente o texto original.

a universidade diz que a carta projeta uma imagem em contraste com a do herói destemido apresentado por Waller, que censurou os textos de Livingstone antes de apresentá-los para publicação póstuma.

A carta é parte de um projeto para produzir uma versão sem cortes dos diários de Livingstone.

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