Shlomi Arbiv/MeaTech 3D
Shlomi Arbiv/MeaTech 3D

Técnicas para criar carne em laboratório avançam. Mas o bife é suculento?

Empresa consegue produzir carne com base em células reais, de músculo e gordura, derivadas de amostras de tecido de vaca; processo 100% livre de origem animal ainda é difícil

Cristiane Segatto, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2021 | 05h00

O maior bife criado em laboratório no mundo foi revelado nesta semana pela empresa israelense MeaTech 3D. Na imagem distribuída à imprensa, ele parece semelhante a um pedaço de carne convencional, mas há dúvidas quanto ao sabor e à textura do produto. O tamanho (110 gramas) representa um passo à frente de concorrentes que investem no desenvolvimento de diferentes técnicas para a produção de alimentos de origem animal de forma alternativa à pecuária tradicional.

O bife apresentado pela empresa é composto de células reais, de músculo e gordura, derivadas de amostras de tecido de vaca. Células-tronco (aquelas que têm o potencial de originar qualquer tecido vivo) bovinas são colocadas em biorreatores (sistemas que mantém a temperatura e todos os nutrientes que as células precisam para se multiplicar e se diferenciar em gordura e músculo).

Em seguida, elas são colocadas sobre uma matriz de colágeno e levadas a uma impressora biológica para adquirir a forma tridimensional desejada. O bife, composto de várias camadas desse tecido celular, ainda está longe de chegar aos supermercados. Em 2022, a empresa de Israel pretende começar a vender células de gordura para a criação de outros produtos.

“Esse avanço é o resultado de mais de um ano de esforços nos nossos processos de biologia celular e engenharia de tecidos de alto rendimento e em nossa tecnologia de bioimpressão”, disse Sharon Fima, CEO da MeaTech 3D. “Vamos nos colocar na vanguarda do desenvolvimento de produtos de carne de alta qualidade à base de células cultivadas”, afirmou. A empresa também prepara linhagens celulares para a criação de carne de porco e de frango.

A carne cultivada a partir de células requer aprovação regulatória antes de ser vendida ao público. Isso aconteceu pela primeira vez no fim de 2020, quando a empresa americana Eat Just passou a servir nuggets de frango aos clientes de Cingapura.

Consumidores que rejeitam sacrifício de animais criam demanda

Em países como Holanda, Portugal e Espanha, diferentes iniciativas tentam produzir carne cultivada em células para atender à demanda de consumidores que rejeitam a ideia de sacrificar animais para se alimentar. “Produzir as células e fazer um material capaz de gerar algo semelhante à carne não é o desafio mais complexo”, diz o professor Flávio Vieira Meirelles, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (USP), em Pirassununga. “O mais difícil é garantir que todo o processo feito em laboratório seja isento de produtos de origem animal. Isso ainda não acontece”, afirma.

O pesquisador da área de terapia celular animal explica que o processo de cultivo celular ainda depende do uso de fatores de crescimento e fontes de proteína obtidas de animais abatidos, o que pode desagradar ao público que essas empresas pretendem atingir. Ele salienta que o avanço anunciado pela MeaTech 3D não é um bife como conhecemos.

“Isso ainda não é carne; é algo parecido. Se a foto não fosse tão produzida e mostrasse o bife cru, ela seria mais esclarecedora”, afirma. “Do ponto de vista nutricional, teoricamente o produto terá o mesmo valor da carne porque é feito a partir de células animais, produzidas em condições ideais.”

Empresas brasileiras querem entrar nesse mercado

Duas grandes empresas no Brasil têm a intenção de disputar esse mercado. Com planos de lançar o produto no País até 2024, seja fabricado aqui ou importado, a BRF investiu US$ 2,5 milhões na Aleph Farms, uma das companhias israelenses mais avançadas nessa tecnologia. A JBS investiu US$ 100 milhões na compra de 51% de uma empresa europeia que desenvolve um produto semelhante.

“O objetivo desses grandes produtores de carne aos fazer esses investimentos é não ficar de fora de algo novo e passar uma imagem positiva ao público ao demonstrar que busca formas alternativas ao abate animal”, diz Sérgio Pflanzer, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Pesquisador da área de processamento de carnes, Pflanzer salienta que a indústria da carne no mundo é de trilhões de dólares. “Se esses novos produtos representarem 1% disso, as empresas que desenvolvem as patentes e os grandes produtores de carne querem abocanhá-lo.” O professor e colegas estrangeiros avaliaram a opinião de 4,4 mil pessoas no Brasil sobre carne cultivada em laboratório. O estudo foi publicado em outubro na revista científica Foods. Do total de entrevistados, 66% disseram que provariam esse tipo de produto e 60% afirmaram que aceitariam comê-lo regularmente. Apesar do interesse em relação à novidade, 5% aceitaria pagar um pouco a mais por um produto como esse.

O preço parece ser um fator fundamental para o sucesso ou insucesso de um lançamento no Brasil. “Qualquer alimento no mundo só emplaca e se torna popular, se for acessível. Não adianta dizer que é ecológico, saudável, amigo ou mais bonito”, afirma Pflazner. 

Outro argumento para fontes alternativas de proteína animal destaca as emissões de gases de efeito estufa da pecuária. Antes de dizer que a carne em laboratório pode poupar o ambiente, é preciso considerar alguns fatores. 

Possibilidade de poupar ambiente deve ser vista com ressalvas

Biorreatores usados nesse desenvolvimento consomem grandes quantidades de energia elétrica. Se ela for produzida a partir de combustíveis fósseis, a conta da redução do impacto ambiental pode não fechar.

Em Israel e Cingapura, países mais avançados na criação de carne cultivada, 96% da energia elétrica depende da queima de combustível fóssil, como gás e óleo. No Brasil, por causa das hidrelétricas, essa taxa é 14%. 

Considerações semelhantes precisam ser feitas sobre o consumo dos chamados análogos vegetais ou hambúrgueres “plant-based”, que imitam aparência e sabor da carne. “A produção vegetal emite menos gases do efeito estufa que a produção animal, mas a alimentação sem carne baseada em produtos vegetais industrializados pode produzir a mesma quantidade de gás carbônico que a pecuária”, diz Pflanzer. É o caso, por exemplo, do hambúrguer feito com proteína de ervilha, vindo da China de navio, para venda aqui.

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