Tempo para pensar no tempo

Herton Escobar está em férias. Imagine Só retorna com novos textos em 20 de março.     Quando você está acordando no Brasil, as pessoas estão se deitando para dormir no Japão. Quando a sua segunda-feira está começando, a deles já está acabando. Quando você senta para jantar na sexta-feira, eles já estão almoçando no sábado. Ok, até aqui, sem grandes novidades: o fuso horário no Japão é diferente do fuso horário no Brasil. Todo mundo que tem parentes no outro lado do mundo ou que passou madrugadas acordado para assistir à Copa do Mundo de 2002 sabe disso. Mas é o exemplo perfeito para levantar algumas questões básicas sobre o tempo. Parei para pensar nisso recentemente quando assistia à televisão de madrugada e, sem querer, me deparei com duas tenistas trocando raquetadas sob um sol escaldante na Austrália. No canto da tela dizia "ao vivo". Logo, pensei: "Como é que essas simpáticas tenistas podem estar suando debaixo de um sol quente desses enquanto eu estou aqui, no escuro, me preparando para dormir?" Na Austrália já era amanhã, enquanto eu ainda estava no ontem. Senti-me um total retardatário e resolvi investigar mais a fundo a questão. Pergunto: Se eu tivesse uma máquina capaz de me teletransportar de São Paulo a Sidney num piscar de olhos, teria eu viajado para o futuro? Para um astronauta que vive na Estação Espacial Internacional, que dá uma volta na Terra a cada 90 minutos, que dia é hoje? O fato é que o tempo como nós o consideramos no nosso dia a dia, marcado por relógios e calendários, simplesmente não existe. É apenas uma referência que os seres humanos inventaram para se comunicar e organizar suas vidas. Para o universo, não existe hora, dia ou semana. Existe apenas tempo.   Eu, você e as tenistas na Austrália estamos todos vivendo no mesmo tempo, ainda que em horários diferentes. Estamos todos sobre a mesma bola de rocha gigante que gira sem parar em torno de si mesma e ao redor do Sol, chamada Terra.   O tempo no Brasil, no Japão e na Austrália é o mesmo, a única diferença é a posição de cada um em relação ao Sol. Quando nós estamos na luz, eles estão na sombra. E vice-versa. As 24 horas que chamamos de "dia" é o tempo que a Terra leva para dar uma volta em torno de si mesma. Mas isso varia com o tamanho e a velocidade de rotação de cada planeta. Em Júpiter, o dia tem cerca de 10 horas. Em Mercúrio, cada giro demora 58 dias. O tempo oficial que rege a vida dos terráqueos é o chamado Tempo Coordenado Universal (UTC), versão mais moderna do clássico Tempo Médio de Greenwich (GMT). Ele é mantido por relógios atômicos superprecisos ao redor do mundo, e é a partir dele que todos os fusos horários são determinados. Mas mesmo o UTC não deixa de ser uma invenção humana. Afinal, qual é o tempo do universo – no sentido cosmológico da coisa? Pois bem: se o universo começou no big-bang, o tempo também começou lá. E não parou mais. Desde então, pelas nossas medidas, passaram-se aproximadamente 13,7 bilhões de anos terrestres. Mas sabe lá o que estão marcando os relógios de outras civilizações ao redor do cosmo.   "Sabemos como é o tempo até que precisamos defini-lo. Aí a coisa complica", resume o especialista Vanderlei Bagnato, do Instituto de Física de São Carlos da USP. E se é complicado para ele, imagine para o resto de nós, seres humanos sem doutorado.   Pense nisso a próxima vez que olhar para um relógio.     * Leia também as colunas anteriores na série "Imagine Só":   O universo invisível   Se Lula fosse uma planária   Se beber, agradeça aos fungos    A origem dos combustíveis fósseis   Meio homem, meio bactéria   As estrelas da noite  

27 de fevereiro de 2008 | 19h35

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