Tensão domina preparatória da Rio+10

O embate entre países ricos e pobres - previsto para acontecer durante a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável ou Rio+10, em Joanesburgo, em agosto - já está ocorrendo na última reunião preparatória, em Báli, na Indonésia. A preparatória prossegue até 7 de junho e tem como finalidade definir a pauta das negociações da Rio+10.A pressão mais forte vem dos Estados Unidos, para que se evite qualquer menção ao Protocolo de Kyoto, rejeitado pelo governo Bush. A delegação americana também quer aumentar os encargos ambientais de países em desenvolvimento, isentando-se de compromissos assumidos no Rio de Janeiro, em 1992, e pretendendo até reabrir discussões sobre acordos fechados, como a Convenção de Diversidade Biológica. A União Européia tem posições mais flexíveis dos que as norte-americanas, mas nem todos seus integrantes se comportam da mesma forma. Alguns resistem, como os EUA, em abandonar os padrões atuais de consumo de recursos naturais, que estão na origem de inúmeros problemas ambientais globais.Já os países produtores de petróleo, representados pela Opep, pressionam as outras delegações contra a opção por fontes renováveis de energia. Eles reagiram com veemência contra a proposta brasileira de se chegar a um mínimo de 10% de energias renováveis, em cada país. A proposta foi endossada pelos ministros de meio ambiente da América Latina e Caribe, reunidos em São Paulo, no último dia 17 de maio, e será levada à Rio+10 como posição regional. Segundo informações do ministro José Carlos Carvalho, presente à reunião de Báli, esta proposta é tida como uma das grandes novidades para a Cúpula Mundial e será votada na próxima segunda feira, dia 3, podendo ser endossada por outros grupos de países. No grupo da América Latina, ela recebeu apoio até mesmo da Venezuela, que é um país produtor de petróleo.O Brasil tem tido um papel de liderança, nas negociações de Báli, na tentativa de evitar retrocessos, com várias gestões junto ao secretário do Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma), Klaus Toepfer, e junto ao secretário geral da reunião de Báli, Emil Salim. A comitiva brasileira ainda articula um alinhamento das políticas ambientais entre os países de língua portuguesa. O ministro brasileiro fez uma reunião paralela com o presidente do Timor Leste, Xanana Gusmão, fechando um acordo que prevê a assistência do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Ibama para a instalação do primeiro Jardim Botânico naquele país. Já em julho, representantes brasileiros vão à ilha para uma primeira visita técnica e uma comitiva do Timor vem ao Rio de Janeiro, conhecer o Jardim Botânico.Colapso iminentePara os observadores de entidades ambientalistas presentes à reunião de Báli, a atual tensão pode se converter num colapso das negociações previstas para a Rio+10. Representantes do WWF, Greenpeace e Amigos da Terra enviaram uma carta ao secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, dizendo que a Cúpula Mundial está "afundando" e pedindo sua interferência direta para aumentar a participação política na fase ministerial da reunião de Báli, na próxima semana."A menos que Kofi Annan interfira, a Cúpula Mundial vai acabar se tornando a Rio ?menos dez?, ao invés de Rio+10", comentou Remi Parmentier, do Greenpeace Internacional. "A União Européia e os países do G-7 devem se unir para garantir que esta conferência traga um benefício para o planeta e para as pessoas, do contrário estarão se sujeitando à vontade do governo norte americano de George W. Bush, cujo objetivo principal parece ser o de interferir para que a reunião não produza nenhum resultado real", acrescentou Kim Carstensen, do WWF-Dinamarca. "Gente do mundo todo está protestando contra a globalização liderada pelas grandes corporações, mas as autoridades continuam a sacrificar a Cúpula Mundial no altar da Exxon, Monsanto & cia", arremata Daniel Mittler, da Amigos da Terra.

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