Terra, o planeta petit gateau

Imagine só: Cerca de 3 mil quilômetros abaixo dos seus pés, neste exato momento, existe um oceano embutido de ferro derretido girando no centro do planeta, a uma temperatura de aproximadamente 4.000º C. Dentro dele está o núcleo da Terra, uma grande bola sólida de ferro aquecida a quase 5.000º C.  E tem mais: esses 3 mil km que separam o chão da sua casa desse núcleo escaldante são recheados com uma massa rochosa chamada manto, que também está em constante movimento e tem temperaturas que variam de 1.000º C a 3.500º C, dependendo da profundidade. Essa crosta externa e ilusoriamente estática na qual vivemos é, na verdade, apenas uma fina camada de rocha fria, que não passa de uns míseros 70 km de espessura.   No geral, dá para pensar no nosso planeta como um gigantesco petit gateau geológico. Se você cortasse a Terra ao meio como uma laranja, o recheio de ferro líquido escorreria para fora, como calda de chocolate quente.  Falo tudo isso para lembrar, em tempos de terremoto à paulista, que o nosso planeta é rochoso, mas não se parece nada com uma rocha. Pelo menos com uma dessas rochas que você pega aí pelo chão. É um organismo geológico superdinâmico, em constante movimento e sempre de cabeça quente. Os terremotos e os vulcões estão aí para nos lembrar disso, de tempos em tempos.  Os primeiros ocorrem porque a crosta terrestre não é uma esfera perfeita, tipo bola de cristal. Ela é toda quebrada em placas, que "flutuam" sobre a camada mais superficial do manto e se encaixam mais ou menos como peças de um quebra-cabeça, mas que estão sendo constantemente afastadas e/ou empurradas umas contra as outras pelas forças internas do planeta. Quando uma delas se esfrega mais bruscamente contra outra, ocorre um terremoto.   Um dia, muitos milhões de anos atrás, os continentes já estiveram todos juntos em uma grande massa supercontinental chamada Pangéia. Com o tempo, um pedaço foi empurrado para lá, outro para cá, e chegamos a nossa configuração atual de Américas, Europa, África, etc.   Hoje, tudo parece estático, mas não se engane: o empurra-empurra de placas tectônicas continua a todo vapor. A Placa Sul-Americana, na qual se encontra o Brasil, continua se esmagando contra a Placa de Nazca, no lado do Oceano Pacífico, e se afastando da Placa Africana, no lado do Atlântico, a uma velocidade média de 3 cm por ano, segundo me explicou o professor Caetano Juliani, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo. Foi essa movimentação, ao longo de milhões de anos, que criou os Andes de um lado e o Oceano Atlântico, do outro.   O motor disso tudo são os movimentos de convecção do manto, que é uma coisa muito bizarra. Pelo que entendi das explicações do Prof. Caetano, o manto é feito de rocha sólida, mas uma rocha sólida que se move como se fosse um líquido. "Talvez a melhor analogia seja o vidro", diz ele. "O vidro parece sólido para nós, mas pode ser considerado um líquido. Se você deixar um vidro encostado numa parede, ele vai lentamente se deformar."   O fato é que nós vivemos sobre placas de rocha que estão flutuando sobre uma camada de rocha derretida, que essas placas estão em movimento, que isso causa terremotos, levanta montanhas, forma vulcões, e não há nada que possamos fazer sobre isso. Vivemos a mercê dos temperamentos geológicos do planeta.  Pense nisso no próximo terremoto.....Dicas:   Este site do Museu de Paleontologia da Universidade da Califórnia tem alguns vídeos legais que mostram a movimentação de placas tectônicas ao longo do tempo: http://www.ucmp.berkeley.edu/geology/tectonics.html   O site da Wikipedia sobre Pangéia também tem um vídeo interessante: http://piru.alexandria.ucsb.edu/collections/animations/Pangea.mov   A homepage do departamento do Prof. Caetano está em: http://www2.igc.usp.br/gmg/

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