Testosterona deixa as mulheres menos cautelosas mais desconfiadas, mostra estudo

O trabalho, realizado por pesquisadores da Holanda e África do Sul, envolveu 24 mulheres

Carlos Orsi, do estadao.com.br

25 Maio 2010 | 14h20

Mulheres que tendem a confiar espontaneamente em estranhos tendem a perder um pouco dessa característica ao receberem uma dose do hormônio testosterona, mostra estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Já mulheres que se mostram naturalmente desconfiadas não foram afetadas pela administração.  

 

O trabalho, realizado por pesquisadores da Holanda e África do Sul, envolveu 24 mulheres, com idade média de 20 anos, que deram uma "nota de confiança" (de -100 a +100) a 150 imagens de desconhecidos com expressão facial neutra.

Para realizar a avaliação, metade das mulheres recebeu uma pílula com testosterona e a outra, uma pílula de placebo, num sistema duplo-cego. Numa rodada seguinte, 72 horas depois, as receptoras de placebo ou testosterona inverteram-se.

 

Sob o efeito da testosterona, as mulheres que mostraram altos índices de confiança depois de tomar o placebo reduziram suas notas positivas - as dadas às faces que tinham considerado merecedoras de confiança - numa média de 50%. Já as que tinham se mostrado desconfiadas sob placebo não alteraram suas avaliações depois de receber o hormônio.

 

"Acreditamos que a testosterona afeta o comportamento de modo adaptativo, que ajuda a lidar com fatores de estresse no ambiente", disse um dos autores do trabalho, Peter Bos, do Departamento de Psicologia da Universidade de Utrecht, na Holanda, explicando a ausência de efeito nas mulheres desconfiadas.

 

"Para pessoas muito confiadas, num ambiente competitivo, é benéfico ser um pouco menos ingênuo, mas para pessoas que já têm baixa confiança, não há ajuda. Reduzir a confiança ainda mais poderia levar à paranoia". 

 

Os autores do trabalho citam estudos sobre a fisiologia do cérebro para levantar a hipótese de que a testosterona atua de forma oposta à oxitocina, o chamado "hormônio do amor", que produz emoções como carinho e confiança.

 

Ao contrário da oxitocina, que enfraquece as conexões entre duas regiões do cérebro, a amídala e o tronco cerebral, a testosterona as reforça. O tronco cerebral é, em termos de evolução, uma região antiga do sistema nervoso.

 

"Acredito que a confiança, da forma como é consciente nos humanos de hoje, evoluiu recentemente", diz Bos. "Mas as bases neurais da confiança são muito antigas. Os mecanismos em que os humanos baseiam suas avaliações de confiança são comparáveis aos mecanismos que os roedores usam para se aproximar de outros animais ou fugir de predadores".

 

O psicólogo diz que a principal diferença da confiança humana é o fato de termos consciência dela, e de que podemos basear nossos julgamentos em outros fatores além da aparência física. "Mas os julgamentos de confiança podem se formar em frações de segundo, e se baseia em mecanismos antigos".

 

No debate entre quais seriam as características "naturais" ou "culturais"  que distinguem homens e mulheres, Bos diz esperar que seu trabalho contribua para uma visão menos estereotipada dos hormônios e de seu papel nas diferenças entre os sexos. 

 

"Descobertas como esta mostram que o rótulo de 'hormônio masculino' pode não ser correto", exemplifica. "Mulheres também têm testosterona no corpo e no cérebro, e ele desempenha um papel do comportamento social e emocional. Além disso, a testosterona interage com outros hormônios,e pode se converter em estradiol, que é tipicamente feminino. Então, talvez o estradiol responda por alguns dos efeitos tradicionalmente atribuídos à testosterona".

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