Texto dúbio de projeto barra pesquisa com células-tronco

Integrantes da Academia Brasileira de Ciências vão a Brasília nesta quarta-feira tentar convencer senadores a mudar o texto sobre pesquisa com células-tronco no projeto de lei de Biossegurança. O artigo, considerado dúbio e mal redigido pelos cientistas, impede, em última instância, a pesquisa com células-tronco de embriões. Os integrantes da comissão deverão se reunir com o presidente do Senado, José Sarney."Do jeito que está, nenhuma comissão de ética aprovaria uma pesquisa envolvendo células de embriões", afirma a geneticista da Universidade de São Paulo (USP), Mayana Zatz. "Estamos perdendo um tempo precioso", argumenta.Embriões descartadosA proposta da Academia Brasileira de Ciências é que sejam liberadas pesquisas com embriões descartados por clínicas de fertilização assistida. Isso ocorre em duas condições: quando os embriões são considerados de qualidade duvidosa ou quando estão há muito tempo congelados.Pesquisas recentes revelam que embriões de má qualidade mostram ser úteis para formação, em laboratório, de linhagens de células germinativas. "É um trunfo precioso para desenvolvermos pesquisas em várias áreas. Estudos que podem salvar vidas", defende Mayana.Clonagem de célulasA pesquisadora lembra que centros de pesquisa brasileiros contam com toda tecnologia para desenvolver pesquisas com clonagem de células embrionárias para fins terapêuticos. "Hoje fazemos com células de cordão umbilical. Mas o ideal é que possamos desenvolver os trabalhos de forma simultânea: clonagem com células adultas e com células de embrião."Ela acrescenta, ainda, que em alguns casos, o uso de células adultas está totalmente descartado. Isso ocorre, por exemplo, com doenças genéticas: uso de células-tronco da medula dos próprios pacientes não tem nenhuma utilidade terapêutica.PatentesEstudos com células embrionárias estão sendo desenvolvidos em vários países da União Européia e no Japão. "Quanto mais o tempo passar maior o número de técnicas patenteadas por outros países. O que vai dificultar muito o nosso trabalho", alertou Mayana.Mais do que isso, há o risco de países desenvolverem tratamentos. "O que vamos fazer, quando isso acontecer? Negar uma terapia para um paciente porque ela é fundamentada com clonagem de células embrionárias?", questiona a pesquisadora."Teremos de pagar o tratamento pelo Sistema Único de Saúde, e aí, uma nova sangria de recursos vai ser registrada. Uma sangria que pode ser evitada, desde que nos deixem pesquisar."Clonagem de embriõesOs pesquisadores também pedem a liberação das pesquisas com clonagem terapêutica, que envolve a produção de células-tronco embrionárias por meio de "embriões" clonados. Como fizeram recentemente, pela primeira vez, pesquisadores coreanos.Nesse caso, em vez de extrair as células de um embrião já formado e congelado, os cientistas utilizariam a clonagem para produzir uma nova linhagem, a partir das células do próprio paciente.A técnica, ainda altamente experimental, é também altamente polêmica, porque requer a destruição dos embriões clonados. A proposta dos pesquisadores brasileiros, entretanto, não considera que esse clone seja um embrião, já que não é formado pela união de um óvulo e um espermatozóide, mas da fusão induzida do núcleo de uma célula adulta com um óvulo sem núcleo.Proíbe mas permiteO texto substitutivo proíbe a "produção e/ou comércio de embriões destinados a servir como material biológico disponível", mas permite a clonagem terapêutica.No ano passado, as academias de ciências de mais de 60 países, incluindo a do Brasil, divulgaram um posicionamento unificado sobre as células-tronco. "Nossa posição é muito clara: totalmente contra a clonagem reprodutiva e totalmente a favor da clonagem terapêutica", resume Hernan Chaimovich.Liberdade e controleProibir as pesquisas com células-tronco embrionárias, segundo ele, seria "um atentado à liberdade de pesquisa responsável"."A busca do conhecimento tem de ser livre e o uso da tecnologia, controlado", defende Volnei Garrafa. Para ele, é preciso separar questões científicas de questões religiosas sobre a "vida" dos embriões."A sociedade não é canônica. Quem tiver objeções à tecnologia tem todo o direito de não usá-la, mas não de impedir que outros se beneficiem dela."

Agencia Estado,

25 de maio de 2004 | 02h28

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