‘Todos somos pecadores’, diz investigador de abusos

Encarregado de apurar casos de pedofilia no clero rejeita excluir de conclave cardeais que acobertaram escândalo

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo,

27 Fevereiro 2013 | 00h15

CIDADE DO VATICANO - Às vésperas do conclave que vai escolher o sucessor de Bento XVI, o Vaticano tem tentado abafar escândalos. Ontem, o principal investigador da Santa Sé para casos de pedofilia, d. Charles Scicluna, deixou claro que "todo pecador pode votar para papa", num esforço de colocar um ponto final ao caso e à pressão internacional por uma exclusão de novos nomes da eleição.

"Todos nós somos pecadores", disse. "Temos de parar de apontar o dedo. Mesmo os primeiros membros do colégio de apóstolos não mereciam ser todos canonizados", insistiu. "Sabedoria não é dada apenas para santos. Pecadores também a têm. Deus fará com que eles atuem pelo bem no conclave", declarou o bispo de Malta.

Além do afastamento do cardeal britânico Keith O’Brien, grupos nos EUA e na Bélgica insistem que cardeais que abafaram casos de pedofilia em suas regiões não poderiam ser autorizados a votar no conclave. Numa tentativa de dar um basta à polêmica, o investigador foi claro: abafar casos no passado não seria motivo para excluir um ou outro nome.

"Esses cardeais têm direito de participar do conclave", insistiu. Scicluna admitiu ontem que o erro da Igreja foi ter mantido o sigilo sobre os casos de abusos de crianças. Mas apontou que a Santa Sé acreditava que, com isso, estava fazendo o certo. "As cortinas do silêncio foram removidas. Hoje é o silêncio que se tornou um escândalo. A percepção mudou", disse.

Agora, ele insiste que o próximo papa terá de seguir o "caminho da purificação" que Bento XVI adotou. "O próximo pontífice terá de lidar com o legado dos abusos sexuais cometidos na Igreja e que deixaram sua marca", reconheceu. "Depois de Ratzinger, ninguém poderá dizer que não sabia. No futuro, essa será a marca que ele deixará, recolocando a Igreja no caminho certo. A partir de agora, a Igreja não tem outra alternativa que a de seguir trabalhando contra os abusos sexuais", insistiu.

"A determinação de Bento XVI em lutar contra a pedofilia no clero não será uma memória distante. É hoje uma parte fundamental da Igreja", acrescentou. Segundo ele, o papa deixa como legado uma série de regras que se transformaram em "instrumentos" para permitir que abusos não voltem a ocorrer e que os responsáveis sejam punidos.

"A presença de algumas figuras controvertidas no conclave não vai mudar nada disso", completou.

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