PLOS One / N. Naudinot
PLOS One / N. Naudinot

'Touro iluminado' muda história da arte na Idade da Pedra

Na Bretanha, cientistas franceses descobriram 45 plaquetas com gravuras de 14 mil anos que reúnem elementos figurativos e geométricos

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

10 Abril 2017 | 18h28

Um conjunto de gravuras produzidas por homens da Idade da Pedra há mais de 14 mil anos foi descoberto em 2013 na Bretanha, no oeste da França e acaba de ser revelado ao público, em um artigo na revista científica PLOS One. 

Os arqueólogos responsáveis pelo estudo das gravuras afirmam que os desenhos, feitos em 45 plaquetas de xisto, compõem "uma iconografia única", que mistura traços artísticos de duas diferentes culturas da época. 

A mais surpreendente das gravuras retrata um auroque  - um bovino pré-histórico extinto - envolvido por uma auréola formada por traços radiais. As outras imagens representam diversos animais, especialmente auroques e cavalos.

De acordo com os cientistas, traços artísticos dessa época do período paleolítico são extremamente raros na Europa - e até agora não se havia encontrado desenhos que misturassem elementos figurativos e estilizados.

"A figura do 'touro iluminado' é única. É a primeira vez, na pré-história europeia, que se descobre uma figura de um animal acompanhada desses traços esquemáticos formando uma auréola. Isso induz a uma simbologia muito forte", disse o autor principal do estudo, Nicolas Naudinot, pesquisador da Universidade de Côte-d'Azur.

Além de pontas de flechas, machados, facas e outros utensílios de sílex, os cientistas encontraram as plaquetas com os desenhos. Segundo Naudinot, as características das gravuras não correspondem a nada que se conhecesse da cultura à qual pertencia aquele local no fim do paleolítico. 

"Essas gravuras são muito importantes, porque elas se inscrevem em um período de transição artística muito mal conhecido pela ciência: a passagem da cultura madaleniana - que se expressava com uma arte figurativa - para a cultura aziliana, na qual a expressão artística se tornou mais esquemática e geométrica", explicou Naudionot.

Elo perdido. Até agora, os cientistas acreditavam que teria havido uma ruptura marcante entre o período aziliano e os dois períodos anteriores: o madaleniano, que inclui, por exemplo, as pinturas das cavernas de Altamira (15 mil anos) e o período aurinaciano, que inclui as pinturas de Chauvet (35 mil anos) - ambos caracterizados por desenhos naturalistas de grande precisão.

O período aziliano era caracterizado por um estilo não figurativo - isto é, não possuía imagens de animais, mas apenas formas geométricas. Entretanto, segundo os cientistas, as gravuras da Bretanha sugerem uma continuidade com as culturas precedentes, embora os raios em torno do auroque sugiram uma incursão na arte mais esquemática que se seguiria. 

"Esse sítio é um tipo de elo perdido, ele mostra que há assincronias entre o simbólico e a técnica", disse Naudinot.

Embora tenham sido encontradas 45 plaquetas com desenhos, neste primeiro estudo sobre a descoberta os cientistas se concentraram em apenas duas, que têm gravuras em ambas as faces. Uma delas ostenta imagens de cavalos completos nos dois lados. A outra apresenta duas cabeças de auroques - uma delas envolta em traços radiais, como se o animal estivesse "brilhando". 

"Nenhum equivalente desse animal brilhante pode ser encontrado na iconografia do paleolítico europeu. Os raios foram gravados depois da cabeça do animal. Depois de feitos os raios, a pessoa que fez o desenho reforçou os traços dos chifres do animal, para que ele aparecesse bem em primeiro plano", descreveu Naudinot.

O conjunto todo foi realçado com o uso de um pigmento carbonáceo. Outros fragmentos gravados, incompletos, possuem raios semelhantes. "O touro iluminado pode não ser o único", disse o cientista.

Naudinot afirma que os arqueólogos ficaram "impressionados com a beleza das gravuras e com o controle preciso dos gestos dos homens pré-históricos que as produziram". "Nas gravuras, é possível distinguir claramente os cascos, crinas e até um pequeno potro. É muito eloquente."

Ladrões e burocracia. As gravuras foram encontradas sob rochas, na cidade de Plougastel-Daoulas, na região do Finistère, na costa da Bretanha. O sítio, conhecido como Rochedo da Imperatriz, foi descoberto em 1987, quando um furacão que varreu a Bretanha arrancou um enorme pinheiro pela raiz, revelando alguns vestígios arqueológicos.

Um sítio de escavação foi estabelecido no local e levou à descoberta de um abrigo sob a rocha, ao pé das falésias. Mas os arqueólogos logo perceberam que a área era ameaçada por caçadores de relíquias. 

Segundo os cientistas, foi preciso solicitar um reforço da segurança do local - o que só aconteceu após a desapropriação do Rochedo da Imperatriz, que ficava em área privada e agora pertence ao Conselho Departamental do Finistère e ao Serviço Regional de Arqueologia.

A partir de 2013, 26 anos após a descoberta do sítio, a equipe liderada por Naudinot pode começar a fazer escavações no local. Segundo ele, "por medo de pilhagens", as escavações foram feitas discretamente, a cada verão. "Não podíamos arriscar. São as obras de arte mais antigas já encontradas na Bretanha", disse Naudinot.

Pelos elementos analisados no nicho sob a rocha, os arqueólogos deduziram que se tratava de um abrigo que servia como campo de preparação para a caça, para grupos de duas a 10 pessoas. Embora o Rochedo da Imperatriz atualmente se situe no litoral, há 14 mil anos ele estava a cerca de 50 quilômetros da costa: a Era do Gelo ainda não havia terminado e o nível do mar era cerca de 90 metros mais baixo.

 

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