Trabalho sobre tatu na arqueologia dá prêmio IgNobel ao Brasil

Estudo sobre dano de tatu a sítio arqueológico ganha prêmio que celebra o lado inusitado da ciência

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

02 de outubro de 2008 | 20h39

Um estudo sobre os danos provocados por tatus a sítios arqueológicos rendeu aos brasileiros Astolfo Mello Araújo e José Carlos Marcelino a honra de receber um prêmio IgNobel, uma paródia do Nobel concedida anualmente pela revista americana Annals of of Improbable Research ("Anais da Pesquisa Improvável") a trabalhos científicos "que primeiro fazem rir e, depois, pensar". "Creio que se trata do primeiro IgNobel do Brasil (o prêmio existe há 18 anos)", disse Marc Abrahams, editor da Annals e mestre-de-cerimônias da festa de entrega, realizada na noite desta quinta-feira, 2, na cidade de Cambridge, Estados Unidos. "Toda a nação vai sair às ruas em desfiles e festas por causa disso, certo?"    Webcast da cerimônia do IgNobel   Abrahams provavelmente vai se decepcionar com a reação do povo brasileiro, mas Araújo, ao menos, gostaria de estar presente para receber o prêmio. "Pelo que me falaram é muito divertido, e você pode inclusive dar uma curta palestra sobre o seu trabalho no MIT, o que, convenhamos, não é pouca coisa", disse ele. "Infelizmente, já gastei todo o meu financiamento acadêmico deste ano, indo para a Espanha e a Irlanda". Em nota encaminhada à organização do IgNobel, os dois autores agradecem a honra: "Já que não existe um Nobel para arqueologia, o IgNobel sempre é bem-vindo!", dizem.   Publicado em março de 2003 pela revista Geoarchaeology, o estudo dos brasileiros foi realizado com tatus no Zoológico de São Paulo - a quem Araújo agradece pelo apoio -, em um falso sítio arqueológico criado no local. "Qualquer arqueólogo minimamente observador percebe, ao longo de sua carreira, que tatus são um problema real", diz Araújo. "Eu percebi isso ao trabalhar em várias partes do Brasil, e me lembro especialmente de ter visto belos e grandes fragmentos de cerâmica indígena serem ejetados de um buraco de tatu, quando trabalhei no Xingu". Entre outras coisas, os animais podem misturar artefatos, carregando peças de um nível do sítio para outro.   "Não há números a respeito, e na verdade nosso trabalho é único, por incrível que pareça", diz ele, que atualmente trabalha em duas escavações em Minas Gerais e dá aulas na USP. "Apesar de os tatus viverem em uma faixa que vai desde a Argentina até o centro dos EUA, nenhum arqueólogo tinha se debruçado sobre o tema".   Araújo diz ter recebido a notícia de que ganhara um IgNobel - prêmio às vezes associado a trabalhos com mais valor humorístico que científico - com tranqüilidade: "O Marc Abrahams, que é o coordenador do prêmio, entrou em contato. Me pareceu ser um pessoal bem legal, eles sondam primeiro para ver se o 'laureado' não vai se ofender e o processo é todo bem amigável".   O arqueólogo se disse surpreso com o prêmio, já que considera seu trabalho "convencional". "Colegas com mentes criativas já usaram lascas de pedra para tirar a carne de elefantes, pisaram em conchas e ossos para observar os padrões de quebra, enterraram carcaças de cachorro com tanques de concreto em cima para observar a movimentação dos ossos. Acho que tivemos sorte de ter tanta publicidade", afirmou, rindo.   Ele não espera um impacto do IgNobel em sua carreira. "O prêmio foi uma coisa divertida, e achei uma pena não poder ter ido à festa, mas realmente não muda nada. Se ainda eles premiassem com dinheiro, como o Nobel..."   Além do IgNobel de Arqueologia para os brasileiros, entre os destaques deste ano está o prêmio de Física, para dois americanos por "provar matematicamente que montes de barbante, cabelos ou qualquer outra coisa acabarão inevitavelmente embaraçados em nós". Já o prêmio de Química contempla os dois lados de uma polêmica: será dividido entre um grupo americano que reporta ter descoberto que refrigerantes de cola funcionam como espermicidas - e um de Taiwan que afirma ter determinado o contrário.   Lista completa:   NutriçãoMassimiliano Zampini da Universidade de Trento, Itália, e Charles Spence da Universidade Oxford, Reino Unido, por modificar eletronicamente o ruído de uma batata frita a fim de fazer com que a pessoa que a mastiga pensar que ela é mais crocante e fresca do que realmente é.   PazO Comitê Federal Suíço de Ética para Biotecnologia Não-Humana e os cidadãos suíços, por adotar o princípio legal de que plantas têm dignidade.   ArqueologiaAstolfo G. Mello Araujo e José Carlos Marcelino,da Universidade de São Paulo, por medir como o curso da história, ou pelo menos o conteúdo da escavação de um sítio arqueológico, pode ser remexido pelas ações de um tatu vivo.   BiologiaMarie-Christine Cadiergues, Christel Joubert e Michel Franc da Escola Veterinária de Toulouse, França, por descobrir que as pulgas que vivem em um cão podem saltar mais alto que as que moram em um gato. MedicinaDan Ariely, da Universidade Duke, EUA, por demonstrar que remédios inúteis caros funcionam melhor que remédios inúteis baratos.   Ciências CognitivasToshiyuki Nakagaki, da Universidade de Hokkaido, Hiroyasu Yamada, Ryo Kobayashi da Universidade de Hiroshima, Atsushi Tero, Akio Ishiguro da Universidade de Tohoku, and Ágotá Tóth da Universidade de Szeged, na Hungria, por descobrir que gosma pode resolver quebra-cabeças.   EconomiaGeoffrey Miller, Joshua Tybur e Brent Jordan da Universidade do Novo México (EUA) por descobrir que o ciclo de ovulação de uma stripper afeta a gorjeta que recebe.   FísicaDorian Raymer da Iniciativa Observatórios Oceânicos da Scripps, e Douglas Smith, da Universidade da Califórnia, San Diego, por provar matematicamente que montes de barbantes, cabelo ou qualquer outra coisa acabarão, inevitavelmente, emaranhados em nós.   QuímicaSharee A. Umpierre da Universidade de Porto Rico, Joseph A. Hill dos Centros de Fertilidade de da Nova Inglaterra, Deborah J. Anderson da Escola de Medicina de Boston e da Faculdade de Medicina de Harvard, por descobrir que a Coca-Cola é um espermicida eficiente; e para Chuang-Ye Hong da Universidade Médica de Taipé, C.C. Shieh, P. Wu, e B.N. Chiang (todos de Tawian) por descobrir que, na verdade, não é.   LiteraturaDavid Sims da Escola de Administração de Negócios Cass, Inglaterra, por ter redigido o estudo You Bastard: A Narrative Exploration of the Experience of Indignation within Organizations (Seu Filho da Mãe: Uma Exploração Narrativa da Indignação Dentro das Organizações).

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