Transgenia requer uso correto e pesquisa constante, diz FAO

A transgenia, quando usada corretamente, pode ser extremamente benéfica para agricultores, consumidores e para o meio ambiente. Esta é a constatação que permeia as 200 páginas do último relatório anual da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).Sempre com a ressalva de que nenhuma tecnologia está isenta de riscos, de que o uso dos transgênicos deve ser avaliado caso a caso e de que são necessárias mais pesquisas para garantir e monitorar a segurança desses cultivos a longo prazo.As conclusões são baseadas, em grande parte, em um relatório do Conselho Internacional para a Ciência (ICSU), organização não-governamental que representa a comunidade científica global. Além de várias outras fontes especializadas.Segurança alimentar"As plantas e os alimentos transgênicos derivados delas hoje disponíveis foram julgados seguros para comer e os métodos usados para testar sua segurança foram considerados apropriados", começa o capítulo sobre segurança alimentar.Mesmo após vários anos de consumo em larga escala, segundo a FAO, não há nenhuma evidência de efeito nocivo sobre a saúde decorrente dos transgênicos. "Muitos milhões de pessoas consumiram alimentos derivados de plantas GM (geneticamente modificadas) - principalmente milho, soja e canola - sem nenhum efeito adverso observado", afirma o relatório.Cautelosa, entretanto, a FAO deixa claro que "a falta de evidências sobre efeitos negativos (...) não significa que novos alimentos transgênicos sejam isentos de risco". "Cientistas concordam que não se sabe o suficiente sobre os efeitos a longo prazo de alimentos transgênicos (e convencionais)", completa.RiscosEntre as grandes preocupações envolvendo a segurança alimentar dos transgênicos, segundo a FAO, estão risco de provocar alergias, presença de substâncias tóxicas e uma possível transferência de genes para o organismo humano."Muitos desses receios também se aplicam a variedades agrícolas desenvolvidas pelos métodos de cruzamento tradicional e cultivadas sob práticas agrícolas convencionais", aponta o documento. Todos esses riscos, segundo a FAO, foram devidamente avaliados e não há evidência de que representem perigo para os consumidores.Segurança ambientalAvaliar o efeito dos transgênicos sobre o ambiente é mais complicado do que sobre a saúde, já que as condições podem variar muito de uma região para outra. "O impacto ambiental de cultivos geneticamente transformados pode ser positivo ou negativo, dependendo de como e onde eles são usados", aponta a FAO.Também nesse caso, muitos dos riscos levantados já existem na agricultura convencional, como o surgimento de ervas daninhas e insetos com resistência elevada a pesticidas (as chamadas "superpragas"), a transferência de genes para plantas silvestres ou convencionais (fluxo gênico) e possíveis efeitos negativos sobre espécies não alvo (ameaça à biodiversidade)."Embora os cientistas tenham visões diferentes sobre esses riscos, eles concordam que os impactos ambientais precisam ser avaliados caso a caso e recomendam monitoramento ecológico pós-liberação para detectar qualquer evento inesperado", explica o relatório.Sempre há impacto"Agricultura de qualquer tipo - subsistência, orgânica ou intensiva - afeta o meio ambiente, portanto é natural esperar que o uso de novas tecnologias genéticas na agricultura também afetará o meio ambiente."Segundo a FAO, não há dúvida de que plantas transgênicas - assim como quaisquer outras - podem cruzar com parentes silvestres e suas similares convencionais.Pesquisadores ainda debatem, porém, se isso representa algum problema, já que o fluxo gênico é um fenômeno natural e as características genéticas dos transgênicos dificilmente ofereceriam alguma vantagem evolutiva para plantas fora do ambiente agrícola.Menos pesticidas"Até agora, naqueles países em que variedades transgênicas são cultivadas, não há nenhum relato confirmado de qualquer dano significativo à saúde ou ao meio ambiente", conclui o relatório. "Pelo contrário, benefícios ambientais e sociais importantes estão emergindo. Fazendeiros estão usando menos pesticidas e estão substituindo produtos químicos tóxicos por outros menos perigosos. Como resultado, trabalhadores rurais e recursos hídricos são protegidos de venenos e insetos benéficos e pássaros estão voltando aos campos dos fazendeiros.""Entretanto, a falta de efeitos negativos observados até agora não significa que eles não possam ocorrer e cientistas concordam que nosso conhecimento sobre processos de segurança alimentar e ecológica é incompleto. Muito ainda é desconhecido. Segurança completa nunca pode ser garantida, e os sistemas regulatórios e as pessoas que os gerenciam não são perfeitos."

Agencia Estado,

24 de maio de 2004 | 02h40

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