Três tecidos tecnológicos

'As roupas permitiram nossa expansão pelo mundo subtropical'

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2016 | 03h00

Nosso corpo foi selecionado para vivermos pelados na África tropical. Mas gostamos de novidade e saímos da África para tentar a sorte nos climas frios da Europa e Ásia. Se fôssemos como qualquer outro animal, seriam milhares de anos de seleção natural para ficarmos peludos e resistentes ao frio. Mas somos espertos, criamos as roupas. Elas permitiram nossa expansão pelo mundo subtropical. 

As primeiras eram feitas de peles de animais. Depois vieram os tecidos de fibras vegetais e hoje adoramos algodão. Mas as roupas nos tornaram pudicos. Hoje sempre usamos roupas, quer estejamos com frio ou calor. O resultado é que 12% da energia produzida nos EUA é usada para resfriar prédios e casas cheias de pessoas com roupas ou esquentar prédios e casas com pessoas mal agasalhadas. É um problema, pois produzir essa energia aumenta o gás carbônico na atmosfera e o aquecimento global.

Diminuir o gasto com aquecimento é relativamente fácil, basta diminuir a temperatura dos edifícios e encorajar as pessoas a se agasalhar um pouco melhor. Mas diminuir o gasto com refrigeração (ar-condicionado) é mais difícil. Ninguém quer andar pelado por aí. Lembrem-se, somos animais pudicos.

Pelado, em um ambiente com uma temperatura de 26,6°C, o ser humano se sente confortável. Mas, para sentir o mesmo conforto usando uma camisa e calça leve de algodão, a temperatura do ar tem de estar a 22,6°C. Em locais quentes essa diferença é o custo energético de nosso pudor. Mas será que é possível desenvolver um tecido “mais fresco” que o algodão e que impeça outras pessoas de verem o nosso corpo? 

Gostamos de tecidos feitos com algodão por três motivos. Eles deixam passar o ar (não ficamos malcheirosos e molhados de suor), não deixam passar a luz (preservam nossa intimidade) e são agradáveis ao tato. Mas o algodão tem um problema: por ele não passa o calor emitido por nosso corpo. Metade desse calor é emitida na forma de radiação infravermelha com um comprimento de 9,5 micrômetros. E essa radiação é absorvida pelo algodão. Essa é a razão pela qual pelados nos sentimos mais frescos do que com uma roupa de algodão, e também explica os 4°C a menos necessários para nos fazer sentir pelados vestindo algodão.

Agora os cientistas desenvolveram um tecido que não tem o defeito do algodão e preserva todas as suas qualidades. Começaram com o polietileno. Esse material é um plástico que usamos bastante (garrafas PET). Ele é totalmente transparente à radiação infravermelha emitida pelo nosso corpo, mas tem diversas desvantagens. É transparente, não deixa passar o ar, e é muito pouco agradável no contato com o corpo. É como vestir uma camisa feita de saco plástico.

Mas isso não desanimou os cientistas. Eles resolveram o problema em duas etapas. Primeiro, produziram um plástico com poros (buracos) muito pequenos, entre 50 e 1 mil nanômetros (um nanômetro equivale a um milionésimo de milímetro). O tamanho desses poros foi calibrado cuidadosamente para fazer com que a luz visível fosse totalmente difratada pelos poros, tornando o material opaco. Além de bloquear a luz visível, esses poros estão em número suficiente para permitir a passagem de ar (assim o tecido “respira”) de maneira semelhante ao que ocorre com o algodão.

Esse novo material, polietileno com nanoporos (nanoPE), tem as vantagens do algodão e não possui o único defeito, que é reter nossa radiação infravermelha. No último passo desse desenvolvimento os cientistas modificaram quimicamente esse material para torná-lo mais agradável ao tato. Pronto. 

Mas você vai dizer, o polietileno é um plástico produzido a partir do petróleo, o vilão do aquecimento global. É verdade, grande parte desse plástico é produzida pela indústria petroquímica, mas no Brasil foi desenvolvida a tecnologia que permite produzir polietileno de álcool de cana-de-açúcar, e essas fábricas já estão em funcionamento. Em breve, você vai entrar numa loja e pedir: Vocês têm camisetas de nanoPE feito de cana? Claro, qual o seu tamanho?

MAIS INFORMAÇÕES: RADIATIVE HUMAN BODY COOLING BY NANOPOROUS POLYETHYLENE TEXTILE. SCIENCE VOL. 353 PAG. 1019 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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