Tudo está em todo o lugar

Imagine só: Se você tivesse um "óculos-microscópio" que o permitisse enxergar fungos, bactérias, vírus e outros microrganismos ao seu redor, o mundo teria uma aparência bem diferente. Você se veria repentinamente cercado e coberto por micróbios de todos os tipos, cores e tamanhos, flutuando, rastejando e deslizando por todos os lados.   Seria um tanto assustador, sim, mas também bastante revelador. O fato é que nosso planeta está coberto de micróbios. A tela do seu computador, o teclado, a mesa, o mouse, a cadeira, o chão, o teto, suas mãos, seus braços, pernas e o próprio ar que você respira estão repletos de minúsculas criaturinhas vivas "invisíveis" - a não ser com os "óculos-microscópio", que um dia alguém há de inventar e eu serei o primeiro a comprar.   Os micróbios são parte da nossa vida e não há jeito de se livrar deles. Você pode ser uma daquelas pessoas neuróticas que lavam as mãos a cada 5 minutos, ou uma criança remelenta que detesta tomar banho ... não importa. De um jeito ou de outro, seu corpo está cheio de microrganismos.   Como já comentei em um artigo anterior, nós temos mais bactérias vivendo no nosso intestino do que células humanas no nosso corpo! (Veja aqui). Mas não é só no intestino, não. Nossos organismos são praticamente uma incubadora ambulante de micróbios. Eles estão na nossa pele, nos cabelos e até a boca da Gisele Bündchen, sinto dizer, está repleta de bactérias.    Mesmo depois de um banho ou de uma boa escovada, elas continuam lá. E quando você espirra, então, é uma chuva de micróbios para todos os lados.   Mas não precisa ficar com nojo, não. A maioria das pessoas só presta atenção nos micróbios quando eles causam alguma doença. Na maior parte do tempo, porém, eles vivem em perfeita harmonia conosco e com a natureza. De fato, são absolutamente indispensáveis para a nossa saúde e a saúde do planeta. Se há muitos micróbios que nos deixam doentes, há muitos outros que nos mantém vivos e saudáveis.   A digestão é apenas um exemplo disso. (Aliás, sabe aqueles famosos "lactobacilos vivos" do Yakult? Pois é, são bactérias. E estão vivas de verdade.)   Sem os microrganismos que vivem no intestino de animais herbívoros, a vaca não seria capaz de digerir plantas e nós não poderíamos comer picanha no domingo. Sem as leveduras, não existiria cerveja para acompanhar a picanha (veja mais neste artigo anterior). Sem as bactérias fixadoras de nitrogênio que vivem no solo, nossa agricultura seria muito menos eficiente. Talvez inviável.   Os micróbios são os produtores primários de qualquer ecossistema. Sem eles, não haveria decomposição de matéria orgânica nem ciclagem de nutrientes. Também não haveria o oxigênio que nós respiramos hoje, que eles gentilmente produziram bilhões de anos atrás. (E não a Amazônia, como já expliquei).   Por muito tempo, os microrganismos foram a única forma de vida na Terra. Eles se multiplicaram, se diversificaram e ocuparam todos os nichos ecológicos do planeta, das profundezas mais profundas do oceano ao topo mais alto das montanhas e à própria atmosfera. Como diz o ditado da microbiologia, "tudo está em todo lugar" ("everything is everywhere", em inglês).   Por mais pequenininhos que sejam, os microrganismos juntos têm mais biomassa do que todos os outros seres vivos do planeta. Sua diversidade também é impressionante: em um único litro de água do mar, cientistas já encontraram mais de 20 mil espécies (foto).   Em 1 grama de solo, os cálculos chegam 1 milhão de espécies. E sobre as folhas de árvores da mata atlântica, cientistas brasileiros estimam que possa haver até 13 milhões de espécies de bactéria.     Como já escreveu o repórter Nick Wade, de The New York Times, se os micróbios tivessem direito de voto, eles é que dariam as ordens. Pense nisso a próxima vez que lavar as mãos.

24 de julho de 2008 | 16h38

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