Krausse / Antiquity
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Tumba revela 26 séculos de história celta

Cientistas removeram bloco de terra completo para estudar a câmara mortuária em laboratório; ‘princesa’ foi sepultada ao lado de joias e ouro

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2017 | 03h00

Há exatos 2.600 anos, às margens do rio Danúbio, no sul da atual Alemanha, uma mulher de cerca de 35 anos, que provavelmente pertenceu à nobreza celta, foi sepultada em uma câmara mortuária luxuosa, cercada de joias e adornos de ouro finamente trabalhados. A tumba foi desenterrada em 2010 e, nos anos seguintes, um grupo de cientistas estudou todos os seus componentes. Agora, os resultados da pesquisa foram finalmente revelados na edição de fevereiro da revista científica Antiquity.

Os artigos de luxo encontrados na câmara mortuária incluíam elementos de ouro, de bronze, de âmbar e de jais - uma gema de carbono fóssil. De acordo com os autores do estudo, o túmulo revelou um aspecto surpreendente: os padrões decorativos de algumas das joias indicam que, na Idade do Ferro, os povos da Europa Central já tinham contato com culturas do Mediterrâneo, do outro lado dos Alpes.

"Algumas das peças indicam que havia artesãos trabalhando nas primeiras cidades celtas, ao norte dos Alpes, que aprenderam seu ofício ao sul dos Alpes", disse o coordenador das escavações, Dirk Krausse, do Escritório Arqueológico do Estado de Baden-Württemberg, na Alemanha.

De acordo com estudos antreiores, os povos que falavam línguas célticas habitavam partes da Europa há pelo menos 3,3 mil anos. Os celtas começaram a produzir ferro na Europa Central há cerca de 2,7 mil anos - iniciando a Idade do Ferro na região - e fundaram a chamada "cultura Hallstatt". Segundo os autores, o túmulo da nobre celta é a mais antiga evidência de que o povo Hallstatt fazia enterros elaborados dos membros de sua elite.

O artigo científico revela que a cabeça da mulher estava separada do corpo, em um dos cantos da câmara mortuária - possivelmente deslocado por uma inundação -, mas o restante do esqueleto se conserva intacto, cercado de suas joias. Havia ainda na tumba o corpo de uma outra mulher, mas os pequisadores não sabem se ela foi enterrada junto com a "princesa", ou se foi colocada ali mais tarde.

A alguns metros da câmara mortuária, um outro túmulo já havia sido encontrado antes, com os restos de uma criança que tinha de 2 a 4 anos ao morrer - também cercada por joias de ouro. 

"O jazigo principal representa um dos mais antigos exemplos de um túmulo de uma mulher excepcionalmente rica e serve como testemunho do importante papel social que tinham algumas mulheres nas comunidades Hallstatt", disse o arqueólogo Manuel Fernández-Götz, da Universidade de Edinburgh (Escócia).

Pistas de ouro. A descoberta teve origem em 2005, quando a equipe de Krausse fazia um levantamento de túmulos na necrópole celta de Heuneburg, um dos sítios arqueológicos mais importantes da Idade do Ferro na Europa Central.

Em uma colina no local, os arqueólogos encontraram um fragmento de uma fíbula de ouro - uma espécie de alfinete ornamental que era usado em roupas - e decidiram realizar uma escavação preliminar.

Eles descobriram que o adorno tinha vindo do túmulo de uma criança que havia sido enterrada com diversas joias de ouro e logo perceberam que se tratava de um túmulo secundário. De fato, bem ao lado havia uma câmara mortuária maior, feita de tábuas de carvalho e de abeto.

Decisão radical. Como as atividades agrícolas na região prejudicariam um estudo detalhado da tumba no local da escavação, os cientistas tomaram uma decisão radical: remover o bloco de terra completo e estudar a câmara mortuária no laboratório.

Em 2010, utilizando grandes gruas, os pesquisadores extraíram da terra um paralelepípedo de 80 toneladas, com 7 metros de comprimento, 6 metros  de largura e um metro de altura. Originalmente a câmara era mais alta, os desmoronamentos ocorridos ao longo dos séculos a achataram, deixando-a com apenas alguns centímetros, segundo os cientistas.

A maior parte dos objetos estavam ao lado do corpo da "princesa", ou sobre ele. Eram fíbulas e broches de ouro e de bronze, adornos decorados com âmbar, um brinco com um longo pingente, também de ouro, braceletes de jais e de bronze, um largo cinto de couro e de bronze, cinco  esferas de ouro trabalhadas - que têm elementos de inspiração etrusca - inúmeras contas de ouro e de âmbar que provavelmente formavam um suntuoso colar.

Também foi encontrado um grande pingente formado por dois pares de presas de javali. Cada par de presas é envolvida com tiras de bronze e tem pequenos sinos de bronze em forma de tulipa, suspensas em barras de bronze. Outro objeto curioso é uma placa de bronze de 40 centímetros decorada com motivos circulares e ligeiramente curvada. A peça, nunca antes encontrada na Europa Central da época, é um chanfro: uma peça de armadura usada para proteger a cabeça de cavalos.

No túmulo ainda havia um punhal, vestígios de fibras têxteis e de peles, um fóssil de ouriço-do-mar fóssil, duas esferas de vidro, cristais e pedras polidas, além de objetos de madeira polida cujo uso ainda é desconhecido. O segundo esqueleto, quase certamente de outra mulher, foi encontrado em um canto da sepultura, sem nenhum objeto sobre ele, exceto braceletes de bronze em torno dos punhos. 

Tesouro de madeira. Mais do que os objetos luxuosos ou interessantes, no entanto, o que entusiasmou mesmo os cientistas foi a prancha de madeira que recobria a câmara mortuária. Feita com 11 tábuas - nove de carvalho e duas de abeto -, o objeto permitiu uma datação exata do túmulo. Graças a ele, os cientistas puderam contar os anéis de crescimento das árvores que o formaram e descobriram que a tumba foi fabricada no ano de 583 a.C. A precisão é muito maior do que seria possível com o método de datação convencional por carbono 14.

Escavações anteriores, feitas na última década, indicavam que Heuneburg e outros sítios do início da Idade do Ferro na Alemanha e na França haviam sido as primeiras cidades construídas ao norte dos Alpes, mas ainda não havia datações precisas. Antes da nova descoberta, assentamentos de até 2.200 anos eram considerados como as primeiras cidades da Europa Central. Agora sabe-se que elas tinham pelo menos 26 séculos. 

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