Turismo representa ameaça às cavernas em São Paulo

Criar um plano de ação para ordenar a exploração, pesquisa e visitação das 424 cavernas do Estado de São Paulo foi o objetivo do encontro realizado hoje na sede do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em São Paulo, que reuniu representantes de órgãos federais e estaduais, pesquisadores, espeleólogos. Entre os principais problemas, o interesse crescente pelo ecoturismo e pelos esportes de aventura, que já estão impactando grutas e cavernas, algumas sem nenhum controle.A reunião marcou, também, o início das atividades do núcleo paulista do Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecav/Ibama), que pretende, conforme Wilson Lima, gerente executivo do Ibama em São Paulo, trabalhar em conjunto com outras entidades que já atuam no Estado, como a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e a Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE). Com 13,04% das cavernas brasileiras, São Paulo é o quarto estado em número de cavernas, a grande maioria localizada no Vale do Ribeira. Somente o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar) concentra 197 delas (quase 50% do total), entre elas as cavernas do Diabo e Santana, que estão entre as mais visitadas. Clayton Ferreira Lino, do Conselho Deliberativo da SBE, diz que ?o principal problema das cavernas hoje é o turismo descontrolado e o turismo de massa disfarçado de ecoturismo?. Segundo ele, algumas grutas isoladas, como as da região de Altinópolis, não estão dentro de nenhuma unidade de conservação e não está claro quem é o responsável pela regulamentação da visitação e pesquisa. Já no Vale do Ribeira, onde a maioria está dentro de parques estaduais ou em sua área de influência, o problema não é institucional, mas a pressão da visitação.?Atualmente mudou o perfil do impacto, que antes estava ligado à mineração de calcário e metais, que chegaram a destruir totalmente muitas cavernas, e ao vandalismo, principalmente nas décadas de 60 e 70?, disse Lino. A ameaça agora é a falta de capacidade de regeneração do ambiente das cavernas - um impacto invisível para quem não é especialista -, que consiste no pisoteio do solo e na alteração de umidade e temperatura no interior da caverna, atingindo não só as formações, como sua fauna peculiar.?Temos hoje pessoas sendo pagas para descobrir novas cavernas para colocar a serviço de grupos de visitação e grutas, cujo acesso é proibido, com monitores levando turistas, como Jeremias e Areias, esta última habitat do bagre-cego, uma espécie em extinção?, conta o espeleólogo. Para Lino, a solução é um pacto entre hotéis, monitores, direção dos parques e órgãos governamentais para um bom manejo das cavernas. Os casos prioritários seriam locais de grande visitação, como as cavernas do Diabo e Santana, ou grutas recém-descobertas, que nem foram estudadas e já têm visitação.Segundo o gerente do Cecav, o objetivo do Ibama é criar regras de uso para as cavernas em todo o Brasil e São Paulo é o quarto estado em que o Ibama está iniciando esse processo, depois de Bahia, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. Responsável legal pelos sítios arqueológicos e cavidades subterrâneas, o Governo Federal pretende, através do Ibama, começar a concentrar as informações e a formulação das regras de manejo das 3.251 cavernas atualmente cadastradas do País.Segundo Clayton Lino, porém, com o estudo mais detalhado das regiões cársticas brasileiras, o número de cavernas pode atingir algumas dezenas de milhares. Somente nos últimos 15 anos, mais de 100 novas cavidades foram descobertas anualmente. Esses ambientes subterrâneos, geralmente caracterizados pela ausência de luz, pequena variação de temperatura e umidade e pela falta de vegetação clorofilada, abrigam ecossistemas muito peculiares e frágeis.

Agencia Estado,

30 de outubro de 2002 | 16h59

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