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Uísque, ciência e bomba

Cientistas escoceses desenvolveram um método para determinar o ano da produção do uísque. Eles usaram o fato de muitas bombas atômicas e de hidrogênio terem sido detonadas na atmosfera após a Segunda Guerra

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2020 | 05h00

Na juventude só tomávamos uísque nacional. Importações eram quase impossíveis e as poucas garrafas contrabandeadas estavam fora de alcance. Mas já lidávamos com uísque falsificado, provavelmente sem malte, que vinha do Paraguai. O tormento dos uísques falsificados também é problema para quem compra os mais caros do mundo. Em 2018, foram negociadas 107.890 garrafas em leilões que movimentaram US$ 49 milhões. A garrafa mais cara, um Macallan Valerio Adami de 1926 foi comprada por 848.750 libras esterlinas, mais de US$ 1 milhão. 

O problema é saber se o líquido dentro da garrafa lacrada, pela qual você pagou uma fortuna, é realmente um uísque de malte puro produzido e engarrafado em 1926. A tentação de falsificar é enorme e o lucro, astronômico. É por isso que os produtores escoceses fazem de tudo para proteger sua reputação. E para isso nada melhor do que recrutar a ajuda de cientistas escoceses. E eles não decepcionaram.

Nas últimas décadas, laboratórios especializados em análise química desenvolveram métodos capazes de examinar moléculas no uísque e determinar se era de malte puro ou continha malte e outros grãos. Esse problema está resolvido: hoje é fácil saber quais componentes foram usados na fabricação de um uísque. Mas havia um problema que resistia aos esforços de cientistas: determinar o ano em que o uísque havia sido produzido. Será que na garrafa de Macallan Valério 1926 havia um Macallan feito com os mesmos grãos em 2016? A novidade é que essa questão também foi resolvida. 

Cientistas escoceses desenvolveram um método para determinar o ano da produção do uísque. Eles usaram o fato de muitas bombas atômicas e de hidrogênio terem sido detonadas na atmosfera após a Segunda Guerra. As primeiras detonações ocorreram antes do lançamento das bombas em Hiroshima e Nagasaki. Essas bombas liberam na atmosfera 14C, um isótopo radioativo do carbono. Esses átomos se espalham por toda a atmosfera e podem ser detectados em qualquer lugar do mundo. A quantidade desse material radioativo cresceu rapidamente até 1963 pois nesse período União Soviética e Estados Unidos detonavam muitas bombas em testes para desenvolver seu arsenal. 

A partir de 1963, a quantidade de 14C começou a diminuir pois um tratado internacional proibiu detonações na atmosfera (agora elas são feitas no subsolo). Hoje, apesar de baixa, ainda é maior que a quantidade existente antes de 1950. Como as plantas verdes usam de forma indiscriminada o carbono normal ou o 14C durante a fotossíntese, os cientistas imaginaram que os uísques fabricados na década de 1960, com grãos de cevada e milho crescidos no ano anterior, deveriam ter uma quantidade maior de 14C. E isso foi comprovado experimentalmente. Os cientistas obtiveram amostras de uísques produzidos a cada ano entre 1950 e a atualidade, mediram a quantidade de 14C na bebida e compararam com a quantidade de 14C na atmosfera. As curvas são idênticas, sendo que a do uísque tem uma defasagem de um ano pois a bebida é feita geralmente um ano depois da colheita dos cereais.

É possível medir a quantidade de 14C em uma amostra qualquer de uísque e determinar exatamente em que ano foi fabricado. De posse desse método para calcular a idade do uísque, verificaram se havia fraude. E, claro, encontraram garrafas vendidas como antigas cujo uísque é recente. Por exemplo, um Talisker, vendido como se fosse de 1863, na verdade foi produzido entre 2007 e 2014.

Em muitos casos, a análise fica mais difícil pois algumas quantidades de 14C equivalem a dois anos distintos, um quando a curva estava subindo (entre 1950 e 1963) e outro quando já estava baixando (entre 1963 e a atualidade). Mesmo assim, a quantidade de fraude é significativa. 

O único problema do método é que ele exige que uma amostra da bebida seja analisada antes do leilão e, para isso, o selo do fabricante tem de ser violado, o que desvaloriza a garrafa para os colecionadores. Sobrou para os cientistas escoceses o desafio de desenvolver um método para tirar uma amostra da garrafa de uísque sem que ela seja aberta. Alguma sugestão?

FERNANDO REINACH

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