Um bairro dentro da Estação Ecológica de Juréia

Ducília do Santos, 62 anos, e Claudino dos Santos, 67, são caseiros de uma propriedade que, segundo eles, pertence a "um japonês de São Paulo", no bairro do Despraiado, localizado ao longo de uma estrada no vale entre a Serra dos Itatins e a do Bananal, ao norte da Estação Ecológica Juréia-Itatins. Ducília e Claudino dos Santos, moradores do Despraiado, com uma das "pontes do Maluf" ao fundo. Foto: Beto Barata/AEA casa, muito deteriorada, pois não é permitido realizar melhorias dentro da Estação, fica em frente ao esqueleto de uma das duas pontes iniciadas na época que o governo estadual pretendia asfaltar a estrada, no final dos anos 70. Conhecidas como "pontes do Maluf", os esqueletos são um símbolo do que poderia ser hoje a região: progresso para uns, destruição ambiental para outros.Nascidos no bairro, o casal Santos não abre mão de viver no local, mas culpa "o meio ambiente" por todos os males. "Não temos condução, pois o ônibus foi tirado por causa das condições da estrada. Hoje estou doente sem poder ir à cidade. Meu marido nem foi trabalhar para cuidar de mim", diz dona Ducília. "O meio ambiente não deixa melhorar a estrada, mas o que resolve aqui são os mais antigos, que cuidam da natureza".Ducília conta que chegou a mudar para Itanhaém para que os quatro filhos pudessem ir para a escola, mas voltou há 24 anos, deixando os filhos. "Não sei ler, mas tenho dó do pessoal daqui. Existe sede para escola, mas fechou, e as crianças vão estudar de perua em Columbina, no pé da serra. Só que quando chove, os alunos ficam presos". Ponte inacabada no Despraido: uma das "pontes do Maluf". Foto: Beto Barata/AESegundo a moradora, seu pai plantava e vendia arroz naquela área, mas hoje as pessoas fazem rocinhas escondido. "Quando eu era pequena, se plantava de tudo. Aqui na frente era tudo bananal, agora é capoeira, porque não pode plantar. Se não tivesse a reserva, teria muita gente trabalhando".Na percepção de Ducília, todas estas imposições acontecem porque a população do local é pobre e ignorante. "Não podemos reformar as casas, mas quem tem dinheiro faz o que quer. Tem um industrial de São Paulo que tem represa, casa e piscina. Temos um barraquinho, mas a terra não está no nome da gente. Fica em um local muito bonito, tem uma queda d´água e poderia ser usada para turismo. Já tive vontade de dar meu sítio para o Gugu, da televisão, pois eu não posso fazer nada, mas sempre dão apoio para quem tem dinheiro".

Agencia Estado,

17 de novembro de 2002 | 22h55

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