Um mercado que mescla ganância e crueldade

Quinta-feira, fiscais do Ibama estouraram um cativeiro com 68 pássaros, em Guarulhos. Picharros, canários-da- terra, bigodinhos, sanhaços e galos-de-campina estavam em gaiolas na sala, quarto, cozinha e até no banheiro da casa de Lenaldo José dos Santos, de 47 anos. Ele vendia também azulões e coleirinhas, que estão na lista dos animais ameaçados de extinção no Estado de São Paulo. Santos foi multado em R$ 36 mil e vai responder, em liberdade, a processo por crime ambiental. Os pássaros continuarão presos, só que em um criadouro conservacionista. Para voltar à natureza precisam de tempo, de reabilitação. E muitos já nem sabem voar. "É desestimulante apreender quando não há locais para colocar os animais", lamenta o presidente da SOS Fauna, Marcelo Pavlenco Rocha. "Eles deveriam retornar à região de origem, mas isso nunca acontece. Alguns vão para os criadouros, outros são soltos e boa parte morre." O advogado Márcio Cammarosano, presidente da Comissão do Meio Ambiente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP), que esta semana promoveu um fórum de debates sobre o tráfico de animais silvestres, diz que passou a se interessar pelo assunto depois que assistiu ao estouro de um depósito de animais na divisa de São Paulo com Diadema. "Uma coisa é ouvir falar, outra é ver como se faz o tráfico. Os bichos ficam presos, sem água, comida, e até sem ar", conta. "Senti mais do que indignação. É uma faceta da miséria humana elevada a um grau insuportável. Quem faz isso se parece mais com animais do que os que estão presos." No ano passado, o Ibama apreendeu 7.762 animais, dos quais 6.500 pássaros, 1048 tartarugas e cágados, 136 répteis (cobras, lagartos e iguanas) e 76 mamíferos. Nesse ramo, não há limites para a crueldade. Traficantes costumam trincar o externo (o osso do peito) das aves com o polegar para vendê-las como dóceis. "Quando tenta se mover, ela sente tanta dor que fica imóvel", conta Rocha. Papagaios, araras e maritacas adultos, que costumam ser muito bravos, têm olhos furados com alfinete ou queimados com ponta de cigarro para se aquietar. "Cegas, as aves ficam abobadas." Os filhotes dessas espécies, que são retirados do ninho, quando apreendidos deveriam passar por um trabalho de reabilitação para aprender a voar e só em dois ou três anos serem soltos. "Isso jamais é feito." No hospital de animais silvestres que funciona no Parque do Ibirapuera, veterinários, biólogos e nutricionistas fazem o que podem para salvar os que chegam. O serviço, da Prefeitura, foi criado em 93 para zelar pelos animais silvestres da cidade, mas pelo seu centro de triagem passam também os bichinhos apreendidos. "Atendemos na medida do possível", diz a bióloga Tereza Cavalheiro, diretora da Divisão de Medicina Veterinária e Manejo da Fauna Silvestre. "Os animais vêm todos misturados, é preciso identificar cada um, medir, pesar e tratar. Quando recebem alta vão para o centro de reabilitação, no Parque Anhangüera. Depois são recolocados na natureza. Os que não se adaptam vão para criadouros ou para o Zoológico." O maior problema é a falta de verbas. "Precisamos de parcerias´, diz Tereza. Em São Paulo há mais de dez feiras do rolo onde são vendidos pássaros, primatas e répteis trazidos do Nordeste e Centro Oeste. Uma dessas feiras, a de São Mateus, funciona no sábado, bem perto do 49.º Distrito Policial. "Não sei por que cargas d´água eles não agem", diz o delegado José Roberto Pedroso, titular do Meio Ambiente. "Minha delegacia não funciona à noite, sábados, domingos e feriados. Cabe à delegacia da área e à PM Ambiental agir." Segundo ele, a lei é muito branda para o tráfico de animais. Até 98, era crime inafiançável, punido com dois a cinco anos de reclusão. "Hoje o traficante paga fiança de R$ 500 e vai embora rindo porque o pássaro canoro vale R$ 2 mil e ele vende centenas por semana." O promotor de Justiça Luiz Paulo Sirvinskas diz que as penas são tão pequenas que dificilmente o traficante vai para a cadeia.

Agencia Estado,

15 de abril de 2002 | 09h19

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