Uma Amazônia sem clichês

O lançamento da Iniciativa Equatorial, ontem, em Londres, incluiu uma visita vip dos convidados - autoridades, cientistas, ambientalistas e empresários - à exposição ?The Unknown Amazon? (A Amazônia Desconhecida), em cartaz há 5 meses no British Museum. Antes, um breve roteiro de seu curador, o arqueólogo Colin McEwan, chamou a atenção para alguns detalhes das peças expostas, nem sempre visíveis aos leigos e certamente pouco conhecidos do público em geral. ?Procuramos trazer a Pré-História da Amazônia de volta à visibilidade. Ela está escrita na paisagem, na forma como os indígenas atuais usam a floresta, nos utensílios que produzem e é responsabilidade da Arqueologia fazer sua leitura?, observa McEwan. Durante muito tempo, acreditou-se que a cultura amazônica fosse fruto da influência andina ou européia, sem expressão própria. ? Mas esta é uma visão simplista, fruto de um retrato unidimensional do que sobrou das culturas amazônicas, 98% dizimadas após o contato com o europeu?, continua o arqueólogo. Para ele, a Pré-História amazônica tem dimensões espaço-temporais profundas, praticamente ignoradas até os anos 80, quando alguns arqueólogos, sobretudo do Museu Goeldi (de Belém, no Pará), da Universidade de São Paulo (USP) e de museus norte americanos começaram a trabalhar melhor a área. O total de arqueólogos, que estuda sistematicamente a bacia amazônica ainda não vai além de uma dezena, mas eles estão produzindo novas evidências de que a presença humanana região tem mais de 12 mil anos e é culturalmente muito sofisticada.Este é o fio invisível, que amarra a exposição ?The Unknown Amazon?. Estão ali reunidas peças de cerâmica, pedra esculpida, madeira, cestaria e arte plumária, que apresentam esta densidade cultural dos povos amazônicos. Estão também algumas peças impressionantes, que mostram o conhecimento de processos complexos de conservação, como as cabeças-troféu dos mundurucu. Os vencedores de guerras inter étnicas cortavam as cabeças dos vencidos e as expunham como troféus, depois de curtir a pele e adorná-las de modo especial. O processo de conservação é diferente da mumificação empregada pelos egípcios, resistindo à umidade amazônica mesmo exposta ao ar livre. /DivulgaçãoMuiraquitã (amuleto) na forma de um peixe. Rios Jamaundá e Trombetas, Médio Amazonas.?Só a diversidade linguística das centenas de etnias amazônicas já é prova suficiente de uma história de mais de 10 ou 12 mil anos?, acrescenta McEwan. Mas existem muitas outras evidências. A existência de grandes extensões de ?terras pretas dos índios? nas várzeas do Amazonas é uma delas. São manchas enormes de terras férteis - muito procuradas pelos atuais agricultores - que se acumularam ao longo de anos de ocupação de grandes comunidades indígenas sedentárias. Em outras palavras, são terras ?construídas? pelas mãos do homem e as escavações arqueológicas nestas áreas, coordenadas pelo brasileiro Eduardo Neves, da USP, começam a chegar nos primeiros esqueletos humanos, que deverão contar parte desta História desconhecida.A exposição ?The Unknown Amazon? fica no British Museum até o próximo primeiro de abril e existem planos de levá-la ao Brasil. ?Nossa intenção, com este tipo de exposição, é constituir, aos poucos uma outra imagem do Brasil, preservando sua integridade cultural e ambiental?, resume o presidente da BrasilConnects, Edemar Cid Ferreira, também presidente do Banco Santos. A BrasilConnects é responsável pela montagem da exposição e pelo trabalhoso processode obtenção de permissão para transporte das peças de museus europeus e brasileiros para Londres. ?Poderíamos ter montado uma exposição mais fácil,com as pinturas de europeus, que retraram os índios amazônicos desde o Descobrimento, mas optamos por um olhar próprio dos brasileiros?, comenta Colin McEwan.

Agencia Estado,

20 de março de 2002 | 17h08

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