Uma cidadã em defesa do livre acesso à água

A oposição à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a batalha contra a privatização da água são duas marcas registradas da escritora e ambientalista canadense Maude Barlow, co-fundadora do Planeta Azul, um movimento mundial de cidadãos pela proteção da água, e do Conselho de Canadenses, uma organização não-governamental (ong) em defesa dos direitos dos cidadãos e da segurança ambiental, hoje com mais de 100 mil membros.De passagem por Porto Alegre, onde veio participar dos debates do Fórum Social Mundial, e lançar a versão brasileira do seu livro ?Ouro Azul? (Editora M. Books, em co-autoria com Tony Clarke), ela concedeu a seguinte entrevista à Agência Estado.AE ? Há uma preocupação recente e crescente com a privatização de fontes de água por grandes corporações. Você acredita que tal privatização chegaria a interferir no acesso público à água potável? Maude Barlow ? Absolutamente. Em um bom número de comunidades isso já está acontecendo. Eu acabo de vir de Montevidéu, no Uruguai, e de Buenos Aires e Rosário, na Argentina, e você não acreditaria nas contas de água! Em Rosário, onde uma das grandes corporações de água da França, a Suez, está instalada, a população não pode pagar pela água de consumo. Também é assim na África do Sul. Está previsto na Constituição deles, o direito de acesso à água. Mas desde que entrou a mesma grande corporação de água francesa (Suez), esta água custa caro e eles não podem pagar. Então, embora tenham direito constitucional e a água esteja disponível nas suas portas, eles acabam usando a água dos rios, sem tratamento. Este é um grande impedimento ao direito de acesso à água: ter que pagar para uma companhia a quem foi outorgado o direito de exploração da água.AE ? O direito à água, então, está dividido entre pobres e ricos...Maude Barlow ? Exato. Algumas pessoas que tem dinheiro, tem o direito, embora nós defendamos o direito para todos. Por outro lado, a água também é negada a comunidades, incluindo ricos e pobres, quando se vendem sistemas hídricos inteiros, como vem acontecendo no Paraguai, com alguns rios. Na Índia, igualmente, a Coca-Cola obteve o direito de exploração de todo um sistema, incluindo um lago e as águas que drenam para lá, e a população local teve negado seu acesso tradicional à água. Então é muito mais do que a cobrança por serviços comuns de abastecimento de água. As corporações têm ido cada vez mais longe atrás de água fresca e pura, incluindo água subterrânea, para engarrafar e vender em Nova Iorque e Paris. E eles realmente estão procurando na América Latina, onde há grandes reservas de água. Também há um movimento na direção do transporte em massa de água, através de supertanques ou aqueodutos, sobretudo na África. A Líbia construiu um imenso aqueoduto sob o deserto e está drenando água do aqüífero subterrâneo.AE ? O aqüífero não fica na própria Líbia?Maude Barlow ? O aqüífero abrange cinco países, mas a água é de quem chega primeiro. Khadafi contratou um grande conglomerado coreano para construir o aqueoduto e a Líbia está tirando toda a água do aqüífero, ou seja, estamos falando de guerras potenciais. Não é só uma questão de uma parte da população pagar e outra não, porque não tem dinheiro, esta é só uma das formas de negar o acesso á água. Ali temos um país tirando a água de outro país. É um dos grandes temas no Oriente Médio: quem tem acesso à água pode negar o acesso de outros à água, pela força ou porque são ricos. E o acesso pode ser negado até à classe média, não são só aos mais pobres...AE ? Aparentemente isso tem acontecido também entre países ricos, com os Estados Unidos explorando alguns lagos canadenses, não?Maude Barlow ? Por enquanto impedimos as principais exportações, mas certamente existe a exploração de água dos Grandes Lagos, do lado americano, por algumas companhias, como a francesa Perrier, que tem uma concessão lá. E supostamente não deveria haver exploração de água nos Grandes Lagos...Temos uma grande preocupação em relação a alguns tratados comerciais, como o Nafta, em que a água é incluída como um investimento. E agora ainda estão pensando em incluí-la como um serviço em alguns acordos, no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC). Então criamos um movimento de cidadãos, porque sabemos, no Canadá, que os Estados Unidos querem nossa água e nossa água corre, em geral, para o norte. Isso quer dizer que, para atender à demanda dos EUA, teríamos de reverter alguns rios, o que quer dizer engenharia de magnitude, grandes transformações.AE ? Que tipo de impactos ambientais poderiam resultar de obras deste tipo?Maude Barlow ? Há, por exemplo, o envenenamento por mercúrio, como já tivemos a norte de Quebec, com a reversão de águas para produção de energia para os EUA. Muitas pessoas, indígenas sobretudo, morreram devido ao envenenamento por mercúrio, porque quando se inundam determinados locais, naquela região, ocorre a liberação de mercúrio natural, que fica disponível na água e causa a chamada ?doença de Minamata?, numa alusão ao mal que atingiu a população daquela cidade japonesa, devido à ingestão de peixes contaminados.Quando falamos nos grandes rios, devemos considerar, ainda, que as áreas onde eles desembocam no oceano são áreas de aporte de nutrientes, importantes para a produção de peixes. Se você reverte o rio, a água não chega mais no oceano e não sabemos o que aconteceria com os peixes. E o que aconteceria com o resto da fauna e com os ecossistemas, que dependem dessa água... E a população, que depende desses sistemas...AE ? Há risco de esgotamento da água subterrânea?Maude Barlow - Na China, há grandes obras de transposição de rios e uso intenso de aqüíferos subterrâneos para alimentar o milagre econômico, sobretudo transferindo a água do norte menos desenvolvido para o sul, mais industrializado. A água da agricultura, da produção de grãos, está sendo transferida para a indústria. Há notícias de que metade das 600 principais cidades do norte da China estão enfrentando crises de água. Novamente não é uma questão de acordar um dia e dizer: ?estamos sem água?. Falta água porque se tomou a decisão de canalizar a água para determinada atividade ou porque a água foi exportada e se foi. Isso é muito, muito sério.AE ? Como os cidadãos podem enfrentar as conseqüências desta exploração da água, se as decisões estão no âmbito das empresas ou dos governos?Maude Barlow - ...Ou do Banco Mundial...AE ? Ou no âmbito de organismos internacionais ...Maude Barlow ? Este é o movimento que estamos criando. Aqui no Brasil, no Fórum Social Mundial, a água é um dos grandes temas e uma preocupação de muitos grupos, muitas ongs. O que as pessoas podem fazer é integrar grupos locais contra a privatização. É preciso questionar os governos e agora vocês, no Brasil, devem ter um governo mais disposto a ouvir, com o presidente Lula. A população precisa dizer que não quer ter a água privatizada, que não quer a água nos acordos comerciais, não quer a água negociada na Alca. É terrivelmente importante contar com o envolvimento das pessoas comuns. Este ano haverá um grande fórum em Kyoto, no Japão, o III World Water Forum, onde haverá grupos de todas as partes do mundo. AE ? Você acredita que o World Water Forum poderia levar a uma convenção internacional, semelhante à de Biodiversidade ou das Mudanças Climáticas?Maude Barlow ? Já existe um tratado escrito, com o objetivo de proteger e aumentar sistemas globais de água. Estamos levando o texto para Kyoto para discutir seus termos.AE ? Você acredita que há riscos de conflitos internacionais pela água envolvendo países distantes do Saara ou de áreas onde já há crise de abastecimento. Os conflitos podem atingir países como Brasil ou Canadá?Maude Barlow ? Haverá uma demanda crescente sobre países com recursos hídricos abundantes, da parte de países que não tem água. Mas não será baseada na necessidade, será baseada em quem pode pagar. Os Estados Unidos virão em busca da nossa água, no Canadá, e isso é algo que preocupa bastante os canadenses. Então queremos tirar a água dos nossos acordos comerciais, achamos que devemos ter o direito de determinação sobre nossos recursos. No Brasil, de forma similar, acredito que se vocês perderem o controle sobre sua água, se colocarem a água em acordos comerciais, as grandes corporações terão o direito de vender sua água onde quiserem, seja engarrafada ou em supertanques. Se o direito é comprado, ele pertence à corporação e não à comunidade ou ao país de origem.AE ? Além dos recursos hídricos, que outro tipo de impactos ambientais podem advir de acordos comerciais como a Alca?Maude Barlow ? Vários, todos terríveis. Através dos primeiros acordos entre Canadá e Estados Unidos - que serviram de protótipo para acordos comerciais mundiais ? perdemos nossa soberania energética. Nós assinamos um acordo, com a Nafta, em que nosso gás natural, nossos recursos energéticos foram considerados continentais, então não pudemos mais negar nenhum pedido de exportação para os Estados Unidos. Basicamente, perdemos o controle sobre nossa energia. Isso é algo que vocês, as pessoas na América Latina, devem saber: vocês podem assinar um acordo que parece equitativo, mas quando se envolvem com uma nação enorme e superpoderosa, como os Estados Unidos, eles simplesmente fazem o que querem. Eles usarão a Alca quando interessar, mas podem virar o jogo e desobedecer as próprias regras, se for mais interessante. O que acontece, então quando você perde controle sobre seus recursos? quando eles são declarados continentais, eles pertencem a todos. Aprendemos isso da forma mais dura e é um alerta que tenho que fazer a vocês. Vocês podem ser ricos em recursos, mas estes recursos podem deixar de pertencer realmente a vocês, podem não se traduzir em riqueza.AE ? E organizações como o Council of Canadians, da qual você é uma das fundadoras, poderiam evitar que isso aconteça?Maude Barlow ? Estamos numa situação em que nossos governos ou estão se vendendo, ou não conseguem mais nos proteger. Esta é a principal preocupação. E é por isso que surgem movimentos, como o do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre: para dizer aos governos que nós não vamos mais esperar por eles, nós vamos estabelecer nossas próprias prioridades, nós temos nosso próprio destino e vamos lutar por ele.

Agencia Estado,

27 de janeiro de 2003 | 17h06

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