Uma Igreja sofrida e insegura aguarda Bento XVI nos EUA

Centenas de paróquias têm sido fechadas e as razões estão normalmente ligadas aos grandes desafios da igreja

Laurie Goodstein, de The New York Times,

14 de abril de 2008 | 17h42

Há menos de duas semanas, enquanto as preparações finais para a visita do papa Bento XVI aos Estados Unidos eram feitas, o bispo de Camden, New Jersey, anunciou planos para fechar ou fundir metade das paróquias de sua diocese. Nesse meio tempo, católicos de New Orleans, Boston, Nova York, Toledo, Ohio e outras três dúzias de dioceses estão em luto pela perda das paróquias e escolas paroquiais onde cresceram.  Veja também: Fotos dos papas com os presidentes americanos  Segurança será reforçada durante visita do papa a Nova YorkCatólicos insatisfeitos também aguardam o papa nos EUAPapa deve falar sobre escândalos da Igreja em viagem aos EUA Então, quando o papa chegar ao país, nesta terça-feira, 15, ele vai encontrar uma igreja americana na qual muitos católicos buscam não só orientação espiritual, mas também que ele reconheça que sua igreja passa por um momento de dor e incerteza.  Centenas de paróquias estão sendo fechadas ou diminuídas, e as razões estão normalmente interligadas com grandes desafios da igreja: a falta de sacerdotes, conseqüências de escândalos de abuso sexual, fundos insuficientes para manter as igrejas, mudanças demográficas e, algumas vezes, falta de pessoas suficientes para freqüentar as missas que justifiquem manter a paróquia aberta. E, ainda assim, para a maior parte dos católicos dedicados, a primeira experiência da igreja foi na paróquia local.  "É frustrante, porque você começa a ver o bispo como um inimigo, o que o coloca em uma situação conflituosa", disse Leah Vassallo, um advogado cuja paróquia em Malaga, New Jersey, está entre as que serão fechadas. "Obviamente você não quer abandonar a sua fé ou mudar de religião, ou ainda não ir à nenhuma igreja. Mas isso realmente desestimula. Ficaremos muito mais hesitantes ao dar dinheiro para uma igreja." Um movimento de resistência ao fechamento de igrejas começou em Boston se espalhou para outras dioceses. No domingo, 13, católicos de seis dioceses - Nova York, Boston, Buffalo (N.Y.), Camden (N.J.), New Orleans, e Toledo - anunciaram que estavam formando um grupo nacional, a Coalizão pelas Paróquias, para tentar evitar o fechamento ou fusão de igrejas viáveis.  Para além das questões de fechamentos e fusões deste momento, esta vai ser a primeira visita de qualquer papa desde o escândalo sexual de 2002, tendo uma importância espiritual, emocional e financeira sobre católicos de todo o país. O escândalo revelou mais de oito mil vítimas e deixou cinco dioceses falidas. Custou à igreja mais de US$ 2 bilhões (R$3,3 bilhões), e ainda não acabou. Semana passada, a família de dois meninos apresentou uma ação civil contra um padre de Massachusetts que supostamente molestou as crianças em 2005.  Uma das repercussões do escândalo é que os católicos de todo o país estão exigindo maior responsabilidade fiscal dos bispos e mais controle das decisões, especialmente no que diz respeito ao fechamento de paróquias.  Muitas dioceses estão também fechando as escolas paroquiais, que forneceram educação rígida para gerações de católicos e não católicos. O custo dos honorários de advogados e acordos com vitimas de abuso colocaram uma pressão financeira sobre muitas dioceses. Mas, em muitos casos, a maior razão é demográfica. Enclaves urbanos de católicos italianos, irlandeses, poloneses e europeus tiveram suas paróquias étnicas fechadas - ou estão tendo que aprender a dividir suas igrejas com imigrantes da América Latina, Ásia e África. Em algumas paróquias, a nova mistura tem sido alegre, em outras, tensa.  Espera-se que o papa elogie a vibração da igreja americana durante sua visita, e há muito para a igreja celebrar. Católicos são o maior grupo religioso nos Estados Unidos, aproximadamente 23% da população, uma proporção que tem se mantido estável. Muitas paróquias estão fortes e algumas crescendo, com o influxo de imigrantes, especialmente hispânicos.  Uma pesquisa divulgada no domingo pelo Centro de Estudos Aplicados do Apostolado da Universidade de Georgetown mostrou uma avaliação de performance mista para os bispos Americanos: 22% dos católicos estão "muito satisfeitos" com os bispos, 50% estão "satisfeitos", 21% estão "insatisfeitos" e 6% estão "muito insatisfeitos". É uma melhora desde 2002, o início do escândalo.  Mas a maior parte dos padres, e até muitos bispos, vão reconhecer os obstáculos.  Das 18.634 paróquias de 2007, 3.238 estão sem pastores residentes. Mais de 800 paróquias fecharam desde 1995, a maior parte desde 2000. (Alguns bispos estão preparando seus párocos para mais fechamentos por vir.) O número de padres ordenados em 2007 caiu para 456, menos da metade do número de 1965. Perto de três em cada 10 católicos que freqüentam a igreja uma ou mais vezes por semana foram pessoalmente afetados pela falta de padres, de acordo com a pesquisa de Georgetown.  "Há uma crise", disse William V. D'Antonio, membro do Instituto Ciclo da Vida da Universidade Católica da América. "Estamos ficando sem padres. A idade média dos padres em atividade é e 60 anos. Temos o recrutamento de novos padres bem abaixo dos níveis de reposição."  Grupos que advogam a liberação do ofício de padre às mulheres e homens casados estão usando a visita do papa para promover sua causa. Mas não há nada que sugira que o Vaticano esteja perto de fazer mudanças em sua estrutura. As soluções sugeridas pelos bispos americanos são trabalhar mais para recrutar candidatos para padre e ordenar decanos permanentes - leigos que possam pregar e realizar funções ministeriais.  Peter Borre, pároco que ajudou na fundação do Conselho de paróquias em Boston, disse que se ele pudesse falar com o papa Bento XVI, ele diria "a falta de padres, Sua Santidade, é tanto um sintoma quanto um problema em si. O problema mais profundo não é uma responsabilidade da comunidade, é uma falha de bispos de inspirarem e trazerem mais pessoas para a os ofícios ministeriais."

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