Uma ilha a serviço da pesquisa

A Fundação Fernando Lee, mantida pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), está recuperando a Ilha dos Arvoredos, no Guarujá, litoral Sul de São Paulo, para abrigar novos projetos ligados à biodiversidade e energias alternativas (eólica, solar e das marés). Com isso, o local, conhecido como Ilha Encantada ou Ilha da Fantasia, deverá voltar a ter a destinação prevista por seu idealizador, o engenheiro Fernando Lee: ser um centro de pesquisas científicas e ambientais. Palco de experimentos inovadores e excentricidades, a ilhota parece cenário de filme de ficção dos anos 60 e 70, justamente a época em que a maior parte de sua estrutura foi edificada. Localizada a 1.600 metros da praia de Pernambuco e formada por um bloco de rochas de 37 mil metros quadrados e 28 metros de altura, com algumas árvores sobre os rochedos, a ilha foi cedida, em 1950, ao santista Fernando Eduardo Lee, filho de imigrantes norte-americanos, que dedicou mais de 40 anos ao local. Visionário, Lee tornou a ilha auto-suficiente em água potável e energia, sendo pioneiro no País na utilização de energia eólica e solar.Ao completar 80 anos, o engenheiro criou a Fundação Fernando Lee, para garantir a continuidade de seu trabalho e administrar a ilha. Isso não impediu, porém, que o projeto entrasse em decadência, sobretudo após a morte de seu idealizador, em 1994. A Universidade Associação de Ensino de Ribeirão Preto (Unaerp) incorporou a Fundação em 1997, quando iniciava o processo de instalação de seu Campus Guarujá, tendo iniciado a restauração e recuperação da ilha."Nosso objetivo é colocar a ilha em funcionamento novamente e transformá-la em base para pesquisas nas áreas de biodiversidade, biologia marinha e energias alternativas", diz o diretor executivo da Fundação, Paulo Mantovan. Com a estrutura física já recuperada e uma estação meteorológica instalada no local, a intenção agora é colocar em funcionamento novamente a torre, em formato de farol marítimo, para captação de vento para produção de energia, e os equipamentos de energia solar, que consistem em captadores de células de sílica, que acionam uma bomba para puxar água do açude, além das placas fotovoltáicas e dos "solaróides" - um dos primeiros aquecedores solares instalados no Brasil.Aproveitamento das ondas Sebastião Moreira/AEAntiga piscina de lazer, sera destinada a trabalho de biologia marinha e energiaO primeiro projeto a ser implantado, nesta nova fase, é o de aproveitamento da força das ondas para gerar energia. Desenvolvido pelo engenheiro civil Nelson Parente Júnior, o sistema tem um custo de implantação de US$ 2 mil dólares o quilowatt (KW) e ocupa em três pontos da ilha.A piscina de água salgada renovável, originalmente construída para lazer, será destinada a estudos biológicos e marinhos. Seu sistema de encher e esvaziar com as marés será adaptado para captar as ondas do mar, abrindo e fechando uma comporta de água e movimentando um gerador, acoplado diretamente na bóia.Em um segundo ponto da ilha, uma tubulação instalada por baixo d´água deve aproveitar a força das águas nas rochas para mover um motor hidráulico. Esse gerador será utilizado também para controlar tanques de piscicultura, instalados por Lee para pesquisas com peixes de água doce e salgada. Por fim, na parte da frente da ilha, voltada para o Guarujá, ficará um terceiro sistema, de bóias que usam pressão e vazão hidráulica para movimentar pistões e gerar energia."Pretendemos conseguir, nos três locais, uma produção de 30 KW. O objetivo é analisar as variações de onda, vento e sol e ver o comportamento dos três tipos de geradores instalados na ilha ao longo do ano", explica Parente. O projeto deverá custar R$ 60 mil e está em análise pela Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep), para entrar em execução.ManutençãoA manutenção da Ilha do Arvoredo é uma das condições da prefeitura para a concessão do prédio, onde foi instalado o Campus Guarujá da Unaerp. "A universidade já investiu cerca de R$ 300 mil na recuperação do local, além dos cerca de R$ 25 mil mensais para manutenção e pagamento dos 11 funcionários, que se revezam na ilha. Até o momento, só utilizamos recursos próprios, mas chegamos a um limite e precisamos conseguir outros meios de arrecadação", explica Mantovan.Segundo o diretor executivo da Fundação, a intenção da Unaerp é colocar o local à disposição de pesquisadores e criar convênios e parcerias com outras instituições de pesquisa e universidades, inclusive para cursos de extensão e MBA. "Temos alojamento para 20 pessoas na ilha", diz.

Agencia Estado,

30 de novembro de 2002 | 17h08

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