EFE/EPA/Ministry of civil aviation
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Fernando Reinach
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Uma pequena revolução

A distinção entre doenças infecciosas e não infecciosas está desaparecendo

Fernando Reinach, colunista

25 de janeiro de 2020 | 05h00

Nos últimos anos vem ocorrendo uma pequena revolução na Medicina. A distinção entre doenças infecciosas e não infecciosas está desaparecendo. As doenças infecciosas são causadas por vírus, bactérias, fungos e parasitas. Exemplos: gripe, pneumonia, micoses e malária. Elas se caracterizam pela invasão de nosso corpo por esses seres vivos, que causam a doença. Esses seres vivos migram de um corpo para outro e a doença aparece em outra pessoa. Por isso, elas podem se espalhar rapidamente e causar epidemias e pandemias. 

As doenças não infecciosas são aquelas que não dependem de outro ser vivo para causar o estrago. Elas se desenvolvem em nosso corpo ao longo do tempo e não são transmitidas de uma pessoa para outra. Exemplos: obesidade, doenças cardiovasculares, Alzheimer e diabete tipo 2. As razões para o aparecimento dessas doenças são mais complexas. Elas podem ser relacionadas à predisposição genética, hábitos, como alimentação, prática de exercícios e outros fatores ambientais.

Na história, doenças infecciosas sempre foram a causa principal de morte - veja a pandemia de gripe em 1918 e a peste negra na Idade Média. Mas nos últimos 100 anos, com a descoberta de antibióticos e vacinas, elas perderam importância. Hoje, estima-se que 70% das mortes sejam causadas por doenças não transmissíveis. A pequena revolução na Medicina está ocorrendo por causa da descoberta de que as doenças não infecciosas podem ser transmitidas entre pessoas. 

Há um número enorme de outros seres vivos que habitam nosso corpo, tanto no intestino (a flora intestinal) quanto na pele e orifícios. Eles são importantes para a saúde. Nas últimas décadas, a possibilidade de sequenciar o genoma de bactérias permitiu estudar microrganismos que vivem em nosso corpo. Sabemos que há centenas ou milhares de diferentes espécies deles no intestino de cada um de nós. 

Os tipos de microrganismos que habitam o intestino variam de uma pessoa para outra. É o que passaram a chamar de microbioma. Assim, eu seguramente tenho no intestino uma coleção de microrganismos distinta da sua. A análise do microbioma de pessoas com doenças não infecciosas demonstrou que elas possuem microbiomas semelhantes, muito diferentes do microbioma de pessoas saudáveis. Além disso, pessoas com diferentes doenças não infecciosas possuem microbiomas característicos. Mas o grande susto ocorreu quando cientistas descobriram que casais, famílias ou pessoas que dividem locais de trabalho têm o microbioma influenciado pelas pessoas com quem convivem. 

Quando o microbioma de uma pessoa magra fica semelhante ao microbioma de uma obesa, ela passa a ter mais chances de ficar obesa? Os primeiros estudos epidemiológicos indicam que isso pode ocorrer em humanos. Mas esses estudos são difíceis de executar, pois pessoas que convivem também compartilham outros riscos, como hábitos e alimentação semelhantes.

Em animais, essas questões foram resolvidas com transplantes de microbiomas. Nesses experimentos, as fezes de um animal são colocadas no intestino de outro que não possui microbioma. Assim é possível analisar os efeitos dos tipos de microbiomas em ratos e camundongos que nunca tiveram microbiomas próprios. Os resultados mostram que animais que recebem microbiomas de animais obesos ficam mais facilmente obesos e o mesmo ocorre com outras doenças. 

Em seres humanos, os primeiros experimentos de transplante de microbioma estão em sua infância, mas tudo indica que os resultados obtidos em animais vão se repetir em humanos. Todos esses resultados demonstram que há microbiomas característicos para doenças não infecciosas, que esses microbiomas podem passar de um indivíduo para outro e aumentar as chances de essa pessoa vir a ter a doença. 

Sem dúvida, a noção de que doenças não infecciosas não podem ser transmitidas de uma pessoa para outra pode deixar de fazer sentido nos próximos anos. E se isso for verdade será uma pequena revolução na Medicina, pois talvez também seja possível tratar essas doenças substituindo o microbioma do doente pelo microbioma de uma pessoa saudável.

MAIS INFORMAÇÕES: ARE NONCOMMUNICABLE DISEASES COMMUNICABLE? SCIENCE VOL. 367 PAG. 250 (2020)

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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