Unicamp testa processo de remediação para áreas contaminadas

Quase todos os Poluentes Orgânicos Persistentes, conhecidos como POPs e, em especial, os derivados de petróleo, podem ser eliminados do solo de áreas contaminadas através de processos de remediação não convencionais, que usam a hidroxila (OH) como principal reagente químico. Os testes de bancada foram realizados no Laboratório de Química Ambiental da Universidade Estadual de Campinas (LQA-Unicamp) com amostras reais de organoclorados do tipo "drins", retiradas da antiga área da Shell, em Paulínia.Com base nos resultados dos testes - nos quais se obteve até 80% de remoção dos contaminantes - poderia ser feita uma remediação no local contaminado, sem necessidade de remoção do solo, a um custo inferior aos dos processos de recuperação convencionais. Tanto a incineração como a disposição do solo contaminado em aterros ou contêineres apropriados, que são as alternativas mais usuais, implicam na remoção do solo, com riscos redobrados de contaminação durante o processo de transporte e armazenagem, sem contar que a incineração, se não é controlada, pode gerar emissões de poluentes muito mais tóxicos do que os próprios "drins", como as dioxinas e furanos.O LQA trabalha com várias alternativas de reagentes químicos para solos e efluentes contaminados, em projetos de pesquisa coordenados por Wilson Jardim, com financiamento de cerca de R$150 mil por ano, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e reagentes fornecidos pela Degussa. Um acordo está em fase final de formalização também com a Petrobrás, para pesquisas em áreas contaminadas por derivados de petróleo. A pesquisa específica com as amostras da Shell vem sendo feita, nos últimos 2 anos e meio, por Gislaine Ghiselli, que defendeu mestrado no fim do ano passado, e Fernanda Vasconcelos de Almeida, que termina o doutorado este ano, ambas sob orientação de Jardim. No primeiro ano, houve colaboração e financiamento da Shell, que franqueou a entrada da equipe à área interna da antiga unidade de Paulínia para amostragem.Segundo Gislaine, o primeiro passo foi fazer uma avaliação da área e do grau de contaminação. Foram amostrados 13 pontos diferentes, com retirada de solo na superfície, a 50cm e a um metro de profundidade, todos na antiga área usada para manipulação dos produtos, dentro do perímetro da Shell. "As amostras superficiais foram as de maior concentração de poluentes, tendo sido encontrada uma variação de 0 a 10 microgramas por grama de solo seco até 3000 a 5000 microgramas/g, o que é uma média entre os vários tipos de drins e as várias profundidades de cada ponto", disse a pesquisadora.Foram encontrados compostos conhecidos com Aldrin, Dieldrin, Endrin Aldeído e Endrin Cetônico. A área de maior risco tem cerca de 800m2, correspondendo a 1410 toneladas de solo contaminado, com um total estimado de 1 tonelada de drins.O segundo passo foi testar o reagente adequado para remediação destes compostos específicos, usando os Processos Oxidativos Avançados (POA), cujo princípio é causar uma reação química dos contaminantes com a hidroxila, de forma a degradá-los até chegar em água e gás carbônico, com alguns sais mineralizados, como resultado final. Em Paulínia, seria necessário acidificar o solo, com ácido sulfúrico, depois usar um sulfato de ferro como catalisador e o peróxido de hidrogênio (água oxigenada a 50%) como fonte de hidroxila. Gislaine ressalta que o processo é agressivo e a hidroxila reage também com outros compostos naturais do solo, alterando-os. Ainda assim, a remediação pode ser mais eficiente do que os processos convencionais, sobretudo se posteriormente combinada com a bioremediação, feita com micro organismos, que atuam no longo prazo. O fato da contaminação da Shell ser antiga, continua, "torna a remediação mais difícil, pois os compostos químicos já foram muito sorvidos (absorvidos e adsorvidos) pelo solo, quer dizer, já estão combinados a substâncias naturais da terra, de forma muito estável". Uma contaminação recente, com os mesmos drins, seria remediada de forma mais eficiente. Mesmo assim, usando as amostras reais, Gislaine chegou a remover 80% dos contaminantes, sobretudo do tipo Aldrin e Endrin, sendo que uma parte destes, depois da reação, converteu-se em Dieldrin, que é um pouco menos tóxico. Isso aconteceu também na segunda bateria de testes, feita com colunas de amostras reais de solo, que simulavam a compactação (de 1,8 pontos) verificada na área contaminada.Gislaine chegou até a calcular o total de reagentes e os custos da remediação dos 800m2 da Shell, em Paulínia, se fosse usado este processo. Seriam necessários 299 litros de peróxido de hidrogênio, 25 kg de sulfato de ferro e 27,5 litros de ácido sulfúrico, a um custo médio de R$ 700,00 por metro quadrado. Teriam que ser feitas diversas aplicações, superficiais e profundas, misturando-se os reagentes no momento de cada aplicação."Processos semelhantes podem ser muito eficientes, sobretudo, para remediação da contaminação causada por vazamentos em postos de gasolina", afirma Wilson Jardim. "Tanto, que na EPA (a agência de proteção ambiental norte-americana), os POA já foram adotados, deixando de ser experimentais, e existe um manual de recomendações". Cada remediação deve ser precedida de um estudo e de testes de bancada, para adequação dos reagentes ao tipo de contaminantes, tipo de solo e condições específicas locais."Infelizmente, no Brasil, a população tem que começar a encarar a remediação de áreas contaminadas como uma rotina, para tratar o imenso passivo ambiental, que reflete uma época em que o desenvolvimento industrial prevalecia sobre a qualidade ambiental", disse Jardim. "E o pasivo ambiental é bem grande".

Agencia Estado,

29 de maio de 2002 | 17h13

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