Usinas de álcool podem comercializar créditos de carbono

A co-geração de energia elétrica a partir do bagaço de cana está respaldando as usinas de açúcar e álcool a conseguir o certificado para venda de créditos de carbono prevista no Protocolo de Kyoto. A Vale do Rosário, de Morro Agudo (SP), inaugurou o filão e conseguiu o certificado de pré-validação por sete anos, a partir de 2001. No dia 27, as usinas paulistas Alta Mogiana, Santa Elisa e Moema também serão certificadas. Até o final do ano, mais uma dezena de usinas entra para este novo negócio.A comercialização de créditos de carbono é um mercado ?ainda intangível?, como define o especialista em certificações e sócio gerente da Econergy Brasil, Marcelo Diniz Junqueira. É que, para ser efetivado pelas Nações Unidas, esse mercado precisa que o protocolo de Kyoto seja ratificado por 55 países responsáveis por 55% da produção de gás carbônico no mundo. Por enquanto, 77 países aderiram ao protocolo, mas somam ?apenas? produção de 36% de CO2. Os Estados Unidos são os maiores poluidores, mas se negaram a ratificar o protocolo.Segundo Junqueira, a falta de quorum não está impedindo que alguns poucos negócios ocorram no chamado ?mercado de opções? ou ?pré-anuência?. Muitas empresas de países industrializados querem evitar futuros limites de emissão de gases impostos pelos governos e antecipam a compra de créditos de carbono.Há também as empresas que querem se mostrar ambientalmente responsáveis e fomentam este novo negócio. ?O protocolo de Kyoto pode até não decolar, mas há várias empresas e países que querem diminuir a poluição do planeta?, diz Junqueira defendendo que o novo negócio é irreversível. Para ele, o mercado de créditos de carbono é uma das equações mais justas.A falta de ratificação, no entanto, faz com que o mercado de opções ainda remunere pouco as indústrias que produzem energia limpa. Atualmente, paga-se US$ 5 para cada tonelada de CO2 que deixou de ser emitida. A Vale do Rosário, por exemplo, recebeu certificado equivalente a 645 mil toneladas de CO2 por sete anos, mas não efetuou o negócio à espera de preços melhores com a entrada em vigor do protocolo.Junqueira calcula que as usinas brasileiras certificadas possam ter uma renda extra entre 5% e 10% do seu faturamento anual com a venda de créditos de carbono. ?A comercialização de créditos deve somar US$ 300 milhões ao ano para os países em desenvolvimento como Brasil, Índia e China?, comenta.Além da biomassa e do aproveitamento dos resíduos de madeira para a produção de eletricidade, também podem obter créditos de carbono para comercialização os investimentos em Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), projeto de eficiência energética, energia solar, energia eólica ou qualquer projeto que diminua o consumo de combustíveis fósseis, orienta Junqueira.Ele diz, porém, que as usinas de álcool têm um dos meios mais fáceis de ser aceito na compensação de gás carbônico emitido. Além de ser limpa e renovável, a geração de energia através do bagaço não é exigência do governo, mas iniciativa das usinas. ?A redução tem que ser voluntária por parte de quem quer vender os créditos?, explica. ?O álcool misturado à gasolina diminui a poluição, mas é uma exigência prevista em lei?, argumenta.Segundo Junqueira, a co-geração a partir do bagaço também é mais fácil de ser medida para se chegar à contrapartida de créditos. ?A quantidade de energia vendida para a rede é medida no pagamento da distribuidora?, justifica. A energia gerada para alimentar a própria usina, mesmo que a partir do bagaço de cana, não pode ser computada. São detalhes de um mercado ainda intangível, mas que representa um novo filão de negócio ao mesmo tempo que ajuda a reduzir a poluição do planeta.

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