Kathelijne Koops
Kathelijne Koops

Uso de ferramentas é inato em chimpanzés, mas não entre bonobos

Diferenças entre os dois 'parentes' mais próximos do homem podem ajudar a compreender a evolução humana e domínio das tecnologias

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

16 Junho 2015 | 19h48

O uso de ferramentas é inato entre os chimpanzés, mas não entre os bonobos, de acordo com um novo estudo realizado por cientistas da Universidade de Cambridge (Reino Unido). Do ponto de vista evolutivo, os chimpanzés (Pan troglodytes) e os bonobos (Pan paniscus) são os dois "parentes" mais próximos dos humanos. De acordo com os autores do estudo, publicado na revista Scientific Reports, a questão sobre como o homem começou a utilizar ferramentas é crucial para que se possa entender a evolução humana.

Segundo o estudo, os chimpanzés são os que mostram a gama mais diversificada de uso de ferramentas, com exceção dos humanos. Eles utilizam, por exemplo, varas para "pescar" cupins e formigas, pedras para abrir nozes, além de objetos para escovação e comunicação. Os bonobos, por outro lado, raramente utilizam ferramentas e nunca se dedicam a forragear, isto é, revirar folhas e gravetos em busca de comida.

Segundo uma das autoras do estudo, Kathelijne Koops - professora de Cambridge e da Universidade de Zurique (Suíça) -, o fator mais importante para entender a evolução humana é o que faz do homem um usuário de ferramentas. "A origem do domínio humano das ferramentas pode estar no abismo que existe, nesse aspecto, entre os chimpanzés e os bonobos", disse Kathelijne.

O estudo, feito em parceria com cientistas da Universidade de Quioto (Japão), investigou três hipóteses principais: se o uso de ferramentas tem relação com oportunidades oferecidas pelo ambiente onde vivem os macacos, se a manipulação das ferramentas é aprendida com outros macacos por contato social, ou se usar ferramentas é uma capacidade inata.

Os cientistas fizeram uma meticulosa investigação para rastrear comunidades de chimpanzés e bonobos selvagens, durante vários meses, no Congo e em Uganda. Eles catalogaram o uso de ferramentas, mas também todo potencial para usá-las, em diferentes ambientes e em diversos contextos de contato social.

A equipe também investigou a propensão inata para a manipulação de objetos em jovens macacos, mesmo quando tais objetos não eram usados como uma ferramenta. De acordo com os autores, o estudo forneceu a primeira comparação desse tipo entre espécies selvagens.

As oportunidades oferecidas pelo ambiente, segundo os cientistas, não foram capazes de explicar as diferenças entre os animais no uso de ferramentas. De castanheiras a formigueiros e de pedras a arbustos, os bonobos tiveram acesso a várias ferramentas e oportunidades promissoras de forrageamento em seu ambiente, assim como os chimpanzés.

As oportunidades sociais também não explicam as diferenças entre as duas espécies na capacidade de manipular ferramentas. Os jovens bonobos gastavam até mais tempo com suas mães, tinham contato próximo com mais indivíduos e passavam mais tempo se alimentando que os chimpanzés. Os jovens bonobos também tinham mais parceiros sociais que os jovens chimpanzés.

No entanto, jovens chimpanzés manipularam e brincaram bem mais com objetos que os bonobos. Os cientistas também observaram pequenos chimpanzés brincando solitariamente com objetos. "Essas diferenças já eram bem visíveis em indivíduos muito pequenos", disse Kathelijne. 

"Os chimpanzés têm foco em objetos de uma maneira que os bonobos não têm. Considerando a estreita relação evolutiva entre essas duas espécies e os humanos, essas descobertas podem nos ajudar a identificar as condições que levaram à evolução das tecnologias humanas. Nosso estudo sugere que uma predisposição inata - ou uma motivação intrínseca - para manipular objetos foi provavelmente também selecionada pela linhagem dos hominídeos e teve um papel central no desenvolvimento das tecnologias da nossa espécie", afirmou Kathelijne. 

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