Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

USP investiga como ser um idoso saudável

Pesquisadora Mayana Zatz, junto com equipe, resolveu destrinchar o genoma de idosos que mantiveram a qualidade de vida

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2019 | 03h00

RIO - Qual seria o segredo daquelas pessoas que conseguem chegar aos 80 anos, aos 90, e até mesmo aos cem com uma boa saúde? A questão intrigava a pesquisadora Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (USP), uma das maiores geneticistas do País. Para responder a essa pergunta, ela e sua equipe resolveram destrinchar o genoma de idosos que mantiveram a qualidade de vida apesar dos anos passados e, mesmo, de alguns maus hábitos. O objetivo é um dia conseguir "copiar" esse efeito, garantindo um envelhecimento saudável para uma número cada vez maior de pessoas.


O resultado foi apresentado na manhã desta segunda-feira, 12, em Londres, no Fapespweek, simpósio científico organizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), reunindo cientistas do Brasil e do Reino Unido. Debruçados sobre mais de 1,3 mil genomas de pessoas longevas, os cientistas buscam os chamados genes protetores, que impediriam o desenvolvimento de determinadas doenças. 


"Acredita-se que 20% do envelhecimento seja genético e 80% ambiental, relacionado a alimentação, exercício físico, essas coisas que todo mundo sabe", explicou a geneticista. "Mas existem algumas famílias em que vemos vários centenários, muitas pessoas que passam dos 100 anos, sem tomar nenhum cuidado especial com alimentação ou exercício. Essas pessoas têm os genes que chamamos de protetores; e nesta população, esses percentuais se invertem."


Segundo Mayana, o estudo realizado em São Paulo, é crucial. "A população de São Paulo pode nos dar uma resposta importante porque não há praticamente nada saudável no cotidiano da cidade", disse ela. Os cientistas não conseguiram ainda detectar esses genes protetores. Mas, quando isso acontecer, será possível isolar a proteína responsável pelo efeito protetor e replicá-la em pessoas que não nasceram com essa vantagem genética.

 

Reconstrução de órgãos.

Na palestra "Como ser um centenário saudável", Mayana abordou também inovações científicas que poderiam entrar em ação no caso de determinadas doenças já estabelecidas. Ela apresentou dois projetos inovadores de transplantes de órgãos desenvolvidos na USP - outra maneira poderosa da ciência de contribuir para a longevidade saudável. O primeiro deles envolve a construção de órgãos customizados a partir das células-tronco do próprio paciente. O segundo é um avanço importante na direção dos xenotransplantes - o uso de órgãos de porcos em humanos.

Um dos maiores desafios enfrentados hoje por especialistas em transplantes é, justamente, a questão da rejeição dos órgãos. Nessa área, um dos maiores objetivos dos cientistas é desenvolver técnicas que consigam driblar esse problema. Uma dessas tecnologias seria a de criação de órgãos "sob encomenda", feitos a partir das células do próprio paciente.


Essa tecnologia parte de um órgão doado, do qual são retiradas todas as células originais, mantendo-se apenas um arcabouço. A partir do sangue retirado do paciente, os especialistas obtêm células tronco e as induzem, em laboratório, a se diferenciarem em células específicas do órgão em questão. Desta forma, seria possível criar um órgão novo, exatamente igual ao do paciente. A tecnologia está sendo testada em camundongos.


Outro estudo diz respeito ao xenotransplante - o transplante de órgãos entre espécies diferentes; no caso, de porcos para homens. Já se sabe há muito tempo que os órgãos do porco são os mais parecidos aos humanos. Ainda assim, um xenotransplante desse tipo nunca se mostrou viável por conta da rejeição. Agora, os geneticistas conseguiram identificar os genes responsáveis pela rejeição e modifica-los, driblando o problema.


"Os órgãos dos suínos são muito semelhantes aos de humanos, mas se fossem transplantados hoje seriam rejeitados. A ideia é modificá-los para que se tornem compatíveis com o organismo humano", explicou Mayana, durante a palestra em Londres.


A geneticista explica que os três genes que provocam a rejeição são bem conhecidos. Desativando-os é possível fazer com que o sistema imunológico humano não rejeite os órgãos. Além disso, nos porcos transgênicos serão inativados os genes do vírus endógeno suíno (PORV), que convivem no genoma dos animais sem prejudica-los, mas podem ser nocivos aos humanos.


O objetivo agora é testar o soro do sangue desses porcos geneticamente modificados com o soro sanguíneo de pessoas que estão na fila de transplantes para determinar a presença de anticorpos que indicariam a rejeição.


"Trata-se de desenvolver um produto de base biotecnológica nacional, cujo objetivo final será prover à população em fila de espera para transplantes uma alternativa terapêutica viável e definitiva, que pode encurtar o sofrimento do paciente e seus familiares", resumiu Mayana.

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