Vai começar a "guerra do peixe" na Europa

As primeiras bombas da ?guerra do peixe europeu? foram lançadas em Luxemburgo, na reunião de cúpula européia sobre a pesca. As explosões não foram muitas, mas não convém se iludir: a batalha do peixe será brutal e vai ser retomada no próximo mês de outubro, em um Conselho de ministros europeus encarregado da pesca. Qual é a causa da guerra?O comissário europeu incumbido da agricultura e da pesca, o austríaco Franz Fischler, colocou na cabeça que vai salvar os peixes europeus. E esses peixes estão em uma miséria tal, que sua saúde exige uma reorganização feroz das pescas: Fischler propõe que a Europa destrua 8.592 navios de sua frota de pesca, o que levará à supressão de 28 mil empregos. É compreensível que os pescadores vociferem.É preciso distinguir entre duas Europas: os mais furiosos são os grandes países da pesca, os do sul e a Irlanda. A Espanha é a mais ameaçada. Ela conta com 132 mil pescadores. A Itália vem em seguida. A França deverá jogar fora milhares de barcos. Os países do norte estão menos agitados: Alemanha, Bélgica, Suécia, Finlândia, Inglaterra e Dinamarca têm frotas menores. E, sobretudo, têm um sentimento ecológico mais forte.Os países do sul rejeitam os argumentos de Bruxelas. Negam a ameaça. Mas seus protestos expressam apenas seu desespero, pois, na realidade, todo o mundo sabe muito bem que os mares da Europa serão vastos ?mares mortos?, sem peixes, dentro de muito poucos anos. São caracterizados três tipos. Em primeiro lugar, os peixes resistentes (sardinha, enchova, barbo, salmonete, alguns tipos de atum e arenques). Em seguida, os frágeis: o bacalhau do Mar do Norte que, em 20 anos, foi reduzido a um terço. E finalmente, os catastróficos: o tubarão, a raia, o dourado.As causas? É claro que há uma degradação do meio ambiente (poluições industriais, urbanas, agrícolas) que já revela a quantidade da dioxina nos peixes pescados no Mar do Norte e no Báltico. Mas, sobretudo, é preciso questionar os excessos da pesca. Pesca-se muito e mal. Como os peixes estão mais raros e cada vez mais magros, recorre-se a técnicas mortíferas, que atacam diretamente os recursos submarinos, massacrando especialmente os peixes pequenos.Todos conhecem a identidade desses ?assassinos? da vida marinha: os barcos pesqueiros industriais, a pescaria com rede às cegas, a raspagem dos fundos, a colocação de redes monstruosas, as ?redes da morte?, de 30 quilômetros de extensão, a pesca ilegal. Os estoques de peixes que, durante muito tempo, os homens acreditavam inesgotáveis, estão no limite de sua capacidade de renovação. Reina a anarquia.Os governos fecham os olhos para as loucuras, para os assassinatos de populações jovens. Nos mares do norte, navios munidos de aspiradores gigantescos aspiram populações inteiras de peixes pequenos com os quais fabricam farinhas e granulados, destinados a alimentar as explorações de piscicultura. E como os fundos dos mares europeus não conseguem mais alimentar o continente, os navios são enviados cada vez para mais longe e começam a devastar outros continentes ? o golfo da Guiné, a Mauritânia. E o que é pior, a Antártida, onde subsistem espécies de alta qualidade.É hora de acabar com a ?morte programada? dos mares? Certamente, compreende-se o pânico de uma imensa população de pescadores que se vêem condenados ao desaparecimento. Mas, se os mares morrerem, haverá menos pescadores ainda. A via da reforma é inevitável. Também será necessário que sejam tomadas medidas de acompanhamento para proteger a corporação dos pescadores. Talvez deva ser reconsiderada também a piscicultura, que causa danos nos mares, mas que pode ser regulamentada com êxito, como se pode ver na Austrália ou na Bretanha francesa. Esse será o objetivo das próximas reuniões.Mas o certo é que se tem, com as pescas, um novo exemplo das feridas que o homem, esse ?animal predador? e inconsciente, inflige em seu próprio futuro, como já o faz massacrando suas florestas equatoriais, seus grandes rios, suas nuvens, o ar que ele respira. O planeta entrou na zona dos grandes riscos.

Agencia Estado,

12 de junho de 2002 | 19h50

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