Divulgação
Divulgação

‘Vaquinha’ tenta levar amazonenses ao MIT

Grupo desenvolve pesquisa para descontaminar rios da região

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

29 Abril 2016 | 03h00

RIO - Depois de desbancar equipes das universidades de Harvard e Hong Kong em competição internacional organizada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), dez pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) lutam para voltar à disputa. Eles idealizaram projeto para descontaminação de mercúrio em rios da Amazônia com bactérias geneticamente modificadas. Em 2014, ganharam medalha de ouro, mas não voltaram no ano seguinte por falta de recursos.

Agora, tentam captar US$ 5 mil a fim de pagar os custos da participação na iGEM (Competição Internacional de Máquinas Geneticamente Modificadas).

O evento acontecerá em Boston, nos Estados Unidos, de 27 a 31 de outubro. Pelo menos quatro representantes da equipe planejam viajar para a apresentação do biorreator de purificação da água fluvial contaminada por mercúrio. 

“Estima-se que existam 3 mil toneladas de mercúrio nos rios por causa do uso indiscriminado do metal na mineração. A contaminação das águas por metais pesados na Amazônia não é estudada como deveria ser. O panorama é mais crítico do que a gente pensa. O mercúrio interfere em toda a cadeia alimentar até chegar ao ser humano”, disse o engenheiro Carlos Gustavo Nunes da Silva, professor da Ufam.

O projeto aproveita bactérias E. coli geneticamente modificadas. Elas se tornaram sensores de mercúrio - mudam de cor na presença do metal. Também foram manipuladas para “sequestrar” o produto químico. Por fim, degradam o mercúrio, alterando-o para a forma gasosa, menos tóxica. 

A iniciativa rendeu a medalha de ouro há dois anos. Desde então, fizeram rearranjos nas moléculas de DNA. “A bactéria está mais sensível à presença de mercúrio. Consegue detectar quantidades mínimas. O captor de mercúrio consegue adesão de mais de 70% de moléculas. Desenvolvemos circuitos genéticos mais eficientes, que são importantíssimos para o banco de dados da competição. A gente acredita que essas partes de DNA melhoradas sejam o grande trunfo para ganharmos um prêmio”, afirmou o pesquisador da Ufam.

Recursos. Com o contingenciamento de verbas nas universidades públicas no ano passado, a Ufam não pôde arcar com a inscrição. Neste ano, a universidade garantiu a inscrição coletiva. Há ainda a inscrição individual (US$ 600), hospedagem, alimentação e passagens, com custo total de R$ 70 mil. Animados com os resultados no laboratório, os estudantes lançaram uma “vaquinha” na internet. Já amealharam R$ 7.945 pelo site Kickante (www.kickante.com.br/campanhas/ciencia-brasileira-no-mit).

Empresas patrocinam parte dos gastos e os alunos passaram os últimos meses vendendo cachorro-quente e bolo. “Estamos disputando com a cantina”, brincou Silva. As contribuições se encerram em uma semana. Se não conseguirem alcançar o valor total almejado, recebem 83% do que foi doado.

O professor começou a se informar sobre a iGEm em 2011. Na primeira participação, a equipe transformou gordura em energia. Ganhou medalha de bronze. “Tivemos de aprender tudo. Até mesmo inglês, que não sabíamos, para poder fazer a apresentação oral.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.