Vaticano retoma negociações com grupo tradicionalista

Bento XVI vem insistindo na reconciliação com o grupo, mesmo depois de um bispo ter negado o Holocausto

Associated Press,

26 Outubro 2009 | 14h32

O Vaticano informa que as conversações mantidas nesta segunda-feira, 26, com um grupo dissidente de católicos tradicionalistas foram cordiais e continuarão ao longo dos próximos meses.

 

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A cúpula da Igreja Católica emitiu nota ao final de uma reunião inicial entre autoridades do Vaticano e uma delegação da Sociedade de São Pio X, que se separou da Igreja em reação ás reformas implantadas pelo Concílio Vaticano II.

 

O papa Bento XVI vem insistindo na reconciliação com o grupo - mesmo depois de um de seus bispos ter negado o Holocausto - por conta de sua meta de trazer maior unidade à Igreja e dar-lhe uma marca mais conservadora. Na semana passada, ele deu um passo importante nessa direção, ao facilitar o ingresso, no catolicismo, de anglicanos decepcionados com o rumo mais liberalizante dessa denominação.

 

O porta-voz do Vaticano,  Federico Lombardi, disse que a reunião marcou "o início de uma nova fase nas relações", e que houve um "senso de confiança para com a reunião e suas grandes perspectivas" que não houvera antes.

 

O arcebispo ultraconservador Marcel Lefebvre, já morto, fundou a sociedade em 1969, opôs-se às reformas do Vaticano II - incluindo a abertura para com os judeus e as outras Igrejas cristãs e a celebração da missa nas línguas nacionais em vez de latim.

 

Em 1988, o Vaticano excomungou Lefebvre e quatro bispos que ele havia consagrado sem autorização do papa.

 

Bento trabalha há 20 anos para trazer o grupo de volta ao catolicismo. em 2007, relaxou as restrições à celebração da missa em latim, uma exigência do grupo. Em janeiro, atendeu a outra exigência, revertendo a excomunhão dos quatro bispos.

 

Mas, no mesmo dia em que o  decreto era publicado, o bispo britânico Richard Williamson apareceu na TV sueca dizendo que as evidências históricas "são altamente contrárias à morte deliberada, por gás, de 6 milhões de judeus" durante a 2ª Guerra Mundial.

 

A reação foi imediata, com judeus e membros da hierarquia católica criticando a reabilitação, pelo papa, de um negacionista do Holocausto. Embora condenasse as falas de Williamson, o Vaticano defendeu sua decisão, apenas dizendo, mais tarde, que desconhecia as opiniões do bispo sobre o Holocausto, a despeito do fato que ele já as havia manifestado em público várias vezes.

 

A oposição da sociedade ao Vaticano II, particularmente aos ensinamentos sobre ecumenismo e liberdade religiosa, continua no cerne da disputa com Roma e é o foco das conversações.

 

A nota do Vaticano diz que os dois lados identificaram "diferenças doutrinais salientes" entre ambos, que serão discutidas em reuniões que devem ocorrer duas vezes ao mês ao longo dos próximos meses.

 

Essa carga de trabalho "mostra que eles querem avançar com uma certa determinação", disse Lombardi.

Antes do início das conversações, o líder da delegação da sociedade, bispo Alfonso de Galarreta, disse que as negociações podem durar anos.

 

O Vaticano diz que a reunião se deu "num clima cordial, construtivo e de respeito".

 

A nota lista uma série de questões ligadas ao Vaticano II que estão em debate, incluindo os princípios do ecumenismo e as relações com as religiões não-cristãs.

 

A sociedade não divulgou sua versão sobre as conversações

 

O Vaticano diz que a sociedade deve "reconhecer plenamente" o Vaticano II e os ensinamentos de todos os papas que se seguiram ao concílio, se quiser se reintegrar plenamente na Igreja.

 

A sociedade diz que está defendendo a tradição católica ao rejeitar elementos do concílio e afirma que os problemas atuais do catolicismo, incluindo a falta de padres, são resultado direto das decisões tomadas ali.

 

O Vaticano impôs condições específicas para o retorno pleno de Williamson, afirmando que ele deve afastar-se "absolutamente e inequivocamente" de seus comentários sobre o Holocausto, se quiser voltar a ser um sacerdote da Igreja Católica.

 

Williamson desculpou-se pelo escândalo causado por suas afirmações, mas não repudiou publicamente o que disse.

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