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Veado-campeiro desaparece de câmpus e trava pesquisa da Unesp

O animal está desaparecido desde domingo, 2, quando a porta do recinto em que estava foi arrombada

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2015 | 12h57

SOROCABA - O desaparecimento de uma fêmea de veado-campeiro mobiliza a Polícia Ambiental e pesquisadores do câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Jaboticabal, interior de São Paulo. O animal, única fêmea da espécie em cativeiro no Brasil, está desaparecido desde domingo, 2, quando a porta do recinto em que estava foi arrombada. A fêmea cumpria quarentena para ser colocada com um macho da espécie, que havia três anos esperava uma parceira. O casal seria usado num programa inédito de reprodução da espécie ameaçada de extinção.

A polícia trabalha com a hipótese de que o animal tenha sido levado pelo invasor do câmpus ou tenha simplesmente fugido após o portão ter sido arrombado. Buscas realizadas em toda a área da universidade, que fica na zona rural, e nos campos do entorno, tinham sido infrutíferas até a tarde desta quarta-feira, 5. A universidade abriu um canal de comunicação para receber informações sobre o paradeiro de Charlote, como era conhecida a fêmea. Algumas pessoas ligaram dizendo terem visto o animal, mas eram pistas falsas.

Os pesquisadores tentariam a reprodução da espécie em cativeiro, inédita no país. A fêmea, com cerca de dois anos, foi trazida há duas semanas de um centro de recuperação de animais silvestres de Campo Grande (MS) e aguardava o momento de conhecer seu par. De acordo com o pesquisador José Maurício Barbanti Duarte, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Conservação de Cervídeos do Departamento de Zootecnia da Unesp, havia grande expectativa com a possibilidade de acasalamento. "Seria o início do maior programa de reprodução dessa espécie, que está em situação de vulnerabilidade na natureza."

Segundo ele, obter outra fêmea de veado-campeiro é quase impossível, já que, por se tratar de espécie ameaçada, os órgãos ambientais não autorizam a captura na natureza. "Como não há outra fêmea da espécie em cativeiro, teríamos que contar com novo evento improvável, como o que resultou na vinda da Charlote." A fêmea foi apreendida com caçadores.

Barbanti acredita que Charlote não era o alvo de quem invadiu o quarentenário. "Provavelmente a pessoa esperava furtar outras coisas, como defensivos agrícolas, mas só tinha o animal e ele deve ter decidido soltá-lo." Como não havia marcas de sangue no quarentenário, ele não acredita que a fêmea tenha sido abatida. "Até porque, como o animal estava em quarentena, consumir a carne pode ser um grande perigo."

Raro. O veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus) pesa de 30 a 40 quilos e os machos possuem chifres ramificados, geralmente com três pontas quando adulto. O chifre cai anualmente e em seu lugar nasce outro. A espécie ocorria em áreas do Cerrado brasileiro, Pantanal e Campos Sulinos e chegou a ser estimada em dezenas de milhões de indivíduos. Hoje, estima-se que não possua mais de 100 mil indivíduos, estando ameaçada em todos os países em que ocorre - Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia.

Além da perda do habitat, como são animais diurnos e dóceis, viram presa fácil de caçadores, cães e outros predadores, sendo ainda suscetíveis às doenças de muitos animais domésticos. Nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná o veado-campeiro está criticamente ameaçado. De acordo com Barbanti, é alta a probabilidade de estar extinto no Estado de São Paulo. 

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