Velho experimento sugere nova teoria sobre origem da vida

Amostras guardadas por mais de 50 anos revelam novas pistas sobre o surgiemento das moléculas orgânicas

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

16 de outubro de 2008 | 16h07

O original é um clássico dos livros de ciências: num frasco repleto de gases ricos em hidrogênio, como amônia e metano, um cientista produz fagulhas elétricas e obtém, como resultado, aminoácidos - moléculas que são os constituintes básicos da vida. Publicado pela revista Science em 1953, o trabalho do americano Stanley Miller (morto em 2007) parecia fadado a virar peça de museu. Mas, na edição desta semana da mesma Science, pesquisadores descrevem como uma versão pouco conhecida do mesmo experimento pode oferecer novas pistas sobre a origem da vida na Terra.   "Os cientistas não acreditam mais que a atmosfera da Terra primitiva era como a mistura de gases que Miller usou", diz o principal autor do novo trabalho, Jeffrey Bada, em entrevista ao podcast da Science. Por isso, segundo ele, o trabalho de Miller não pode servir como um modelo para a origem da vida em escala global. "Mas talvez sirva como um modelo para origem local", diz Bada, com moléculas orgânicas formando-se e acumulando-se em áreas onde a atmosfera teria condições semelhantes às usadas no experimento: os arredores de vulcões em erupção.   Para chegar a essa conclusão, Bada se valeu da descoberta de amostras remanescentes dos experimentos originais de Miller, encontradas após a morte do cientista, no ano passado.   "O que o público e a comunidade científica em geral não sabem é que na verdade ele testou três configurações do experimento", explicou Bada no podcast. "O clássico, que vemos nos livros. Outro, onde o dispositivo que gera a descarga elétrica era diferente, e um último, onde havia um aspirador que injetava vapor de água no frasco onde ocorriam as faíscas".   Apenas os resultados obtidos com o primeiro dispositivo foram descritos no artigo clássico de 1953, mas Bada diz que a configuração com vapor chamou sua atenção porque "possivelmente simula a descarga que ocorre quando raios cruzam uma erupção vulcânica rica em vapor de água".   "Relâmpagos vulcânicos acontecem sempre que há erupções", disse ele.   A equipe de Bada analisou 11 frascos da configuração com vapor do experimento, apelidada de "vulcânica", e encontrou 22 aminoácidos, muitos dos quais não tinham sido detectados originalmente por Miller. Uma nova análise dos frascos das versões alternativas do experimento, inclusive da versão clássica, mostraram um rendimento menor.   O artigo especula que a associação de vapor de água, gases como os usados por Miller e relâmpagos em ambientes vulcânicos "pode ter sido comum na Terra, antes da formação dos grandes continentes".   Uma questão levantada pela redescoberta do experimento vulcânico é se o mesmo processo poderia ocorrer em outras partes do Sistema Solar, como Marte ou Titã, uma lua de Saturno rica em hidrocarbonetos. "Se essas moléculas surgiram em Marte, elas podem estar congeladas no subsolo", diz Bada.

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