Orbis Catholicus Secundus
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Vilarejo se prepara para receber papa

Após renúncia no dia 28, Joseph Ratzinger passará um período descansando na casa verão do Vaticano, um palácio em Castelgandolfo

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo,

12 Fevereiro 2013 | 21h20

CASTELGANDOLFO, ITÁLIA - Às 20 horas do dia 28 de fevereiro, os aposentos usados pelo papa Bento XVI serão fechados e, em seus trincos, um "sigillo" – uma espécie de lacre - será colocado para marcar o fim do pontificado. Mas a atitude de fechar as portas do quarto usado pelo pontífice abre uma era inédita dentro do Vaticano e que os próprios funcionários da Santa Sé ainda debatem como administrar: a presença de dois papas em território do Vaticano, ainda que um deles já tenha nesse momento renunciado.

Já adotando de novo seu nome Joseph Ratzinger, o cardeal alemão irá num primeiro momento à casa de verão do Vaticano, no pequeno vilarejo de Castelgandolfo, meia hora ao sul de Roma. Situado no alto de um monte, o palácio apostólico o garantirá ironicamente uma vista privilegiada à boca de um vulcão adormecido, hoje coberto de água e conhecido como Lago Albano. Lá, aguardará a reforma do que será seu aposento definitivo, num monastério dentro do Vaticano que passa por uma reforma para acolher o alemão.

Sem uma data marcada para sua mudança definitiva, Ratzinger é ansiosamente aguardado em Castelgandolfo, de onde ele acompanhará as notícias do conclave. O Estado esteve no local e constatou que a população de apenas 9 mil pessoas não disfarça a curiosidade em ter o novo "vizinho". "O papa vem aqui todos os verões", contou a funcionária da prefeitura, Maria Bianchi. "Mas praticamente nunca o vemos. Vamos ver se, agora que já não é papa, vai andar pelas ruas da cidade e de repente aceita até tomar um café lá em minha casa", disse.

Não longe da prefeitura, as irmãs ítalo-argentinas Lídia e Ana Maria Torrigiani, também não disfarçam o interesse pelo novo morador, ainda que seja apenas por uma temporada. Elas, porém, tem razões mais mundanas para estarem entusiasmadas. São costureiras de roupas de cardeais e mantém a única loja dessas peças na cidade.

"Bento XVI sofreu muitos nos últimos meses. Espero que possa descansar", disse Ana Maria, que chegou a se encontrar com o papa em três ocasiões e que conhece bem o palácio. "Ele gosta muito de dar comidas aos patos que estão no jardim do palácio, além de ver os peixes no lago dentro do terreno", indicou. O palácio ainda conta com um telescópio e é usado como o Observatório do Vaticano.

Já Marie Noelle, uma freira da Costa do Marfim que também vive em Castelgandolfo, é mais enfática. "Eu até agora não entendi porque ele renunciou. A vida é cheia de mistérios", disse, enquanto subia quase sem ar uma das ladeiras do vilarejo carregando compras de supermercado.

Alguns desses mistérios, porém, terão de ser solucionados rapidamente pelo Vaticano que admite que, nesse momento, há mais perguntas que respostas sobre o futuro de Ratzinger. A presença de um papa aposentado e um papa reinante no mesmo território é inédita em seis séculos.

Não há ainda um nome para o edifício que ele será colocado. A própria Santa Sé admite que ainda está esperando "orientações" para saber como irá chamar Ratzinger a partir do dia 28. Existem ainda outros desafios: o Vaticano não sabe o que será feito das roupas do papa.

Influência

Apesar de sua presença no território do Vaticano, seu porta-voz, Federico Lombardi, rejeitou a ideia de que Ratzinger use seu tempo para influenciar a Cúria, seja durante o conclave ou depois com a escolha do novo papa. "Bento XVI não se pronunciará em absoluto sobre o processo de eleição", declarou. "Ele é muito discreto e os cardeais serão autônomos na decisão sobre o novo papa", insistiu. "Apesar de ser uma situação inédita, não haverá problemas ter dois papas no Vaticano", completou Lombardi.

Para um dos principais conselheiros de comunicação do Vaticano, Greg Burke, o fato de Bento XVI ter escolhido um monastério para permanecer o resto de seus dias revela que ele adotará uma postura de "muito silêncio". "Isso é importante para não criar uma situação em que dois papas se influenciem."

A nova casa

O Vaticano insiste em passar a mensagem de que Ratzinger começará uma "vida nova, dedicada ao estudo e reflexão". Para isso, ocupará o monastério Mater Ecclesiae, erguido originalmente em 1992 dentro dos muros do Vaticano, na área dos jardins, para servir de residência para os jardineiros.

João Paulo II, porém, logo o transformaria em hospedagem para ordens religiosas que, a cada cinco anos, mudam de local. Em outubro de 2012, porém, a última ordem deixou o local e, no lugar de anunciar os novos moradores, Bento XVI ordenou uma reforma. Já naquele momento sabia que seria para ele, depois de sua experiência na viagem em abril ao México e Cuba que teriam reforçado a tese de Bento XVI de que sua energia estava se esgotando.

Lombardi indicou que havia sido o desejo de Bento XVI ficar dentro das paredes do Vaticano. "Ele se sente mais seguro", explicou. No jardim ao pé de sua porta, árvores com laranjas e limoeiros são cultivados com fertilizantes orgânicos produzidos nos jardins de Castelgandolfo.

No Vaticano, há quem afirme que Bento XVI esperava que a reforma estivesse pronta para março. Ontem, caminhões e operários aceleravam o ritmo das obras. Mas o que não terá como ser acelerado é outra obra que o papa deixará incompleta: sua quarta encíclica, sobre a fé, e que estava sendo preparada para a Páscoa jamais verá a luz do dia.

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