Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

‘Precisa ter visão de futuro, ser persistente’, diz físico brasileiro

Falta de planejamento atrasa avanço científico do País, diz um dos pesquisadores mais influentes do mundo

Entrevista com

Paulo Artaxo

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2016 | 17h14

Os pesquisadores brasileiros são tão bons quanto os de qualquer país. Para produzir ciência de alto impacto, porém, não basta ter um bom cérebro: é preciso dinheiro, planejamento de longo prazo e ousadia para investir em ideias inovadoras. "Temos cientistas brilhantes em todas as áreas do conhecimento", diz o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP). "Do ponto de vista intelectual, estamos no mesmo nível; mas, do ponto de vista operacional da ciência, estamos 50 anos atrás."

Referência internacional no estudo de aerossóis atmosféricos (micropartículas essenciais para a formação de nuvens e regulação do clima), Artaxo, de 62 anos, é um dos cientistas de maior destaque no País. No início deste ano, foi um dos quatro brasileiros listados entre os 3 mil pesquisadores "mais influentes" do mundo pela empresa Thomson Reuters, com cerca de 400 trabalhos publicados e 12 mil citações (quando seu trabalho é usado como referência por outros cientistas). Suas pesquisas mais famosas são sobre o efeito dos aerossóis e mudanças climáticas na Amazônia.

Qual é a receita para se tornar um cientista de renome internacional no Brasil?

É uma conjunção de fatores. Primeiro, você precisa vislumbrar oportunidades de pesquisa que sejam relevantes para o País no cenário internacional. Eu fiz o meu mestrado em Física Nuclear, mas logo no doutorado me desloquei para a Física aplicada ao meio ambiente, que naquela época era uma novidade. Hoje é fácil olhar para essa área e reconhecer a relevância dela, mas 30 anos atrás, não. Essa é outra característica importante: olhar não só para o futuro, mas para um futuro longínquo, e saber aproveitar as oportunidades que aparecem ao longo do caminho. Não existe uma receita pronta, mas basicamente você precisa ter visão de futuro, ser persistente e trabalhar muito.

E, para ganhar visibilidade, as colaborações internacionais são essenciais?

Assim como a economia, a ciência hoje é globalizada. A quantidade de coautores estrangeiros que tenho nos meus trabalhos é enorme, porque desde o início eu acreditei na cooperação internacional como chave para fazer uma ciência de qualidade. Se você faz um trabalho isolado, pode até ser de qualidade, mas suas chances são menores.

Quanto da comunidade científica brasileira segue essas orientações? Por que nossa ciência não tem um destaque maior no cenário internacional?

Há uma série de entraves, tanto nas universidades quanto no sistema de financiamento de pesquisa e na burocracia estatal, que dificulta muito o trabalho científico no Brasil. A burocracia é um problema gigantesco. Nos Estados Unidos, se eu preciso de um equipamento, eu pego o telefone e três dias depois esse equipamento está no meu laboratório. No Brasil, são seis meses para fazer qualquer tipo de importação. Isso causa um atraso enorme e ninguém ganha com isso. Nossa ciência poderia ser muito mais eficiente com as mesmas pessoas e com um custo muito menor.

O brasileiro arrisca o suficiente para fazer grandes descobertas?

Um dos problemas é que a quantidade de recursos financeiros é muito limitada fora do Estado de São Paulo, então há pouco espaço para arriscar. Um pesquisador no interior do Piauí ou do Maranhão, por exemplo, em geral vai ter um projeto aprovado no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) que paga entre R$ 50 mil e R$ 100 mil a cada dois anos. Se ele se arrisca em uma pesquisa que não dá certo, isso vai atrasar o desenvolvimento da sua vida científica em dois anos. Nos Estados Unidos, isso não existe, porque as fontes de financiamento são muito mais diversificadas. Aqui os recursos ainda são muito escassos para permitir a realização de trabalhos de grande escala e alta qualidade. Além disso, as agências de fomento no Brasil tendem a esperar pela demanda dos pesquisadores, em vez de assumir um papel mais ativo de inovação, lançando editais voltados para ideias mais ousadas, coisa que ninguém nunca fez. Isso é muito raro no Brasil. Mas para isso acontecer é preciso ter um sistema azeitado para tolerar o fracasso, experiências que não vão dar certo.

Além de mais dinheiro, então, precisa haver uma mudança cultural, no modo de pensar da ciência brasileira?

Exatamente. Fazer inovação é atividade de risco; pode ser que dê certo, pode ser que não dê. Tive várias ideias ao longo da minha carreira que não deram certo, mas você só vai descobrir isso depois de tentar arduamente com todos os recursos disponíveis. Tem de arriscar para haver inovação.

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