Voluntários analisam água do Ribeira de Iguape

A qualidade da água na bacia hidrográfica do rio Ribeira de Iguape e Complexo Estuarino Lagunar, no sul do estado de São Paulo, ainda são consideradas muito boas, tanto para o abastecimento público, quanto para a manutenção da vida aquática e a conservação da biodiversidade do maior remanescente contínuo de Mata Atlântica existente. No entanto, problemas como a disposição do lixo urbano, a falta de saneamento e de planejamento agrícola, a possibilidade da construção de barragens e o não fechamento do Valo Grande são fatores de alto risco para a manutenção dessa qualidade.Essas são as principais conclusões do Observando o Ribeira, projeto de educação ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica, que envolveu cerca de 1500 voluntários, em 36 grupos de monitoramento da qualidade da água no Vale do Ribeira. Segundo o biólogo Clodoaldo Gazzetta, coordenador do projeto, cada grupo realizou, quinzenalmente, no segundo semestre do ano passado, 12 análises de qualidade ambiental da água, de pontos escolhidos previamente pela equipe. Os resultados desse trabalho estão em um relatório, que será enviado para o Ibama, governo do Estado, municípios da região e Comitê da Bacia, para que sejam tomadas providências sobre os problemas apontados.?Nosso objetivo foi levar a sociedade de cada município ribeirinho a compreender a importância da recuperação e preservação do rio Ribeira, além de estimular a implantação de uma forma de gestão ambiental participativa?, disse Gazzetta. Foram formados grupos em 16 municípios da bacia, em São Paulo e no Paraná - onde nasce o Ribeira de Iguape -, com moradores de unidades de conservação, escolas, comunidades quilombolas e caiçaras, entidades de classe e religiosas, associações de moradores e instituições públicas. Iniciativas própriasA SOS capacitou os líderes de cada grupo, para analisar 15 parâmetros ambientais. Desses, nove eram realizados por percepção, como transparência da água, espumas, lixo flutuante, cheiro e presença de peixes. Os outros seis eram químicos ou biológicos e foram feitos com a ajuda de um kit fornecido pela Fundação a cada grupo, que analisava itens como oxigênio dissolvido e presença de coliformes.?Utilizamos o projeto como estratégia pedagógica, levando os alunos para a beira do rio?, disse o professor de ciências e biologia, Adilson José Costa Oliveira, da Escola Estadual Otaviano Soares Albuquerque, de Pedro de Toledo. As análises realizadas no rio Itariri, que corta a cidade, mostraram que ?o rio ainda está razoavelmente intacto?. Clodoaldo Armando Gazzetta/SOS Mata AtlânticaFoto de uma das tubulações de esgoto na cidade de Eldorado, local de despejo Rio Ribeira de IguapeOs alunos, porém, constataram que o esgoto do município não está sendo tratado. Segundo o professor, um dos resultados do trabalho foi enviar aos vereadores o pedido de reativação da estação de tratamento da cidade, que não está funcionando. ?A partir da observação, passamos a compreender os problemas que nos afetam e a buscar soluções para a melhoria da qualidade de vida e uso ecologicamente correto dos recursos naturais?, avalia Gazzetta.Segundo o biólogo da SOS, as análises de água, apesar de não estarem baseadas em critérios científicos, tiveram resultados semelhantes aos seis pontos de monitoramento que a Companhia de Tecnologia em Saneamento Ambiental (Cetesb) mantém no Vale do Ribeira.Financiado pelo Comitê de Bacia do Rio Ribeira de Iguape e Litoral Sul e pelo Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro), o projeto constatou que a maioria dos municípios dispõe o lixo em locais impróprios, como fundos de vale ou próximos às nascentes de córregos e riachos, que deságuam no Ribeira. ?Somente em Iguape, os voluntários recolheram, em 400 metros do rio, 60 sacos de 100 litros de garrafas plásticas em um único dia?, conta Gazzetta. Os grupos relataram, ainda, que vários municípios jogam seus esgotos sem tratamento nos rios da região e que grande parte da plantação de banana, uma das culturas mais importantes no Vale, está nas áreas de várzea ou próximas às calhas de rios, retirando a mata ciliar. As conseqüências, segundo o biólogo, são as inundações cada vez maiores, por conta do assoreamento do rio. ?No trecho entre as cidades de Iporanga e Iguape, existem apenas 3,5% da mata ciliar original?, disse. Alguns grupos se mobilizaram para recuperar algumas áreas críticas e já plantaram 850 mudas de árvores fornecidas pela SOS Mata Atlântica.ContaminaçãoPela avaliação dos voluntários, a possibilidade da construção de quatro barragens no rio Ribeira e a contaminação das águas por metais pesados, no alto Vale, e organoclorados, na região estuarina, são também grandes ameaçadas à saúde hídrica da região. Essas contaminações são conseqüência de processos minerários e pesticidas proibidos utilizados em lavouras. Elas estão descritas em estudos de universidades, pois demandariam mais tecnologia do que a disponível nos kits do projeto.?A grande prioridade ambiental da bacia, porém, é o término das obras da Barragem do Valo Grande, pois os estudos técnicos realizados na região são unânimes em afirmar que as águas do Ribeira, além de contaminar o estuário com pesticidas, alteram significativamente o frágil ecossistema, comprometendo a qualidade ambiental e a reprodução da ictiofauna?, explica o biólogo. Desvio das águas do Ribeira de Iguape, construído no século passado para facilitar a navegação, o Valo se alargou pela erosão e se tornou a foz principal do Ribeira, em pleno estuário Lagunar (entre Iguape e Ilha Comprida). ?No último fim de semana, tivemos uma grande mortandade de peixes do Valo Grande até Cananéia. Foi uma quantidade imensa de robalos, mussorongos e tainhas mortos, um fenômeno novo e assustador na região?, disse Gazzetta. Vale do Ribeira SOS Mata Atlântica/Base de IguapeAlguns pontos de coleta do Observando o Ribeira

Agencia Estado,

03 de abril de 2002 | 16h40

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